Em todo o Estado, 137 mil pessoas se inscreveram para o Exame Supletivo para o Ensino Médio, promovido pela Secretaria Estadual de Educação . Em Bauru, centenas de alunos vão tentar a qualificação. O ensino supletivo é a oportunidade que muitos precisam para conseguir realizar os sonhos interrompidos no passado. Em Bauru, muita gente tem aproveitado para mudar a vida.
O Centro de Educação Supletiva de Bauru (Ceesub) está repleto de estudantes com este objetivo. Creuza de Miranda Guimarães é uma delas. Aos 50 anos, a agente de serviços, que trabalha na própria unidade, votou a estudar. Ela abandonou a escola após completar a 5.ª série, para trabalhar. “Eu comecei como copeira no Banco do Brasil. Trabalhava durante o dia e até tentei continuar estudando, mas ficava muito cansada”, lembra.
Depois vieram o casamento, os filhos, e voltar para as aulas parecia cada vez mais difícil. “Parei de trabalhar para cuidar das crianças. Até tentei uma vez fazer o supletivo, quando eles eram pequenos, mas não tinha jeito”, diz. Então, foi preciso que Creusa começasse a trabalhar. Por coincidência, ela foi atuar como agente de serviços na Escola Estadual Antônio Serralvo Sobrinho, onde estudou quando era criança. “Foi muito emocionante voltar”, conta.
Anos depois, pediu transferência para o Ceesub, mais próximo de sua casa. “Aí, vi gente de todas as idades correndo atrás do prejuízo e resolvi que eu também conseguiria”, conta. Há três meses ela estuda para terminar o ensino fundamental. E conta com todo o apoio dos filhos, um já formado em educação física e outros dois cursando o ensino superior. “A mais nova faz história e meu outro menino, ciências sociais. Foi uma conquista muito grande, eu sem estudos, conseguir formar os três filhos”, conta cheia de orgulho.
E Creuza também vai buscar a sua formação. Ela faz planos de prestar vestibular assim que concluir o ensino médio. “Quero fazer uma faculdade de pedagogia. Quando criança, muitas meninas têm o sonho de ser como a professora. E trabalhar em escola me influenciou”, afirma. Ela se inscreveu para a prova de supletivo de amanhã, para ganhar experiência. “Quero ver como é a prova. Vai ser meu treinamento”, diz.
Maria Inês Ribeiro, 32 anos, vai prestar a prova de amanhã. Caso seja aprovada, já adianta que vai tentar financiamento estudantil para custear a faculdade de administração que sonha em cursar, mesmo com a desaprovação do marido. Ela só fez até a 4.ª série e conseguiu nos últimos meses tirar toda a defasagem. “Meu pai trabalhava na roça e vivia mudando de sítio. Nunca consegui parar em escola nenhuma”, lembra. “Recentemente, fui procurar emprego e, como não tinha nem o ensino fundamental, estava muito difícil”, diz. Então, procurou uma unidade do Ensino para Jovens e Adultos e começou a estudar.
Logo, marcou as provas para concluir o ensino fundamental. “Fiz cinco provas em uma semana. Estudava que nem uma louca. Chegava às 15h e só saía depois das 22h”, lembra. Conseguiu a aprovação e se matriculou no ensino médio do Ceesub. “Vou tentar a prova de amanhã e, se for aprovada, vou tentar um financiamento e procurar uma faculdade. Meu marido não aprovou, mas eu disse que não ia parar de estudar”, garante.
A determinação de Maria Inês é tanta que, mesmo junto com o ensino médio, faz um curso de auxiliar administrativo. “Às vezes passo o sábado e o domingo estudando. Mas tenho muita força de vontade”, afirma.
Promoção
Rosalina Aparecida Catarino Pereira, 53 anos, copeira, conta que só de ter voltado a estudar já conseguiu duas promoções no emprego. Ela, que estudou somente até a 4.ª série, já está no ensino médio no Ceesub. “Tive que parar de estudar para ajudar meus pais. Além disso, era muito difícil ir até a escola, demorava quase uma hora andando”, lembra. Como sempre trabalhou, nunca teve a oportunidade de voltar a estudar. Até que foi incentivada pela patroa. “Ela me deu uma força muito grande e eu voltei a estudar”, conta. E ela lembra até o dia. “Voltei a frequentar uma sala de aula no dia 28 de abril de 2007. Foi muito difícil começar praticamente do zero, mas fui em frente”, diz.
Assim que concluir o ensino médio, Rosalina pretende continuar sua capacitação. “Vou fazer um curso de informática. Fazer uma faculdade seria muito bom, mas sei que é difícil. Mas, para quem não tinha nada, já conquistei muita coisa”, comemora.
O pedreiro Giovani Martins, 42 anos, conta que sua família nunca deu muita importância para os estudos. “Fui até a 6.ª série, mas como trabalhava na roça, ficava muito cansado e dormia a aula inteira. Acabei não conseguindo concluir e pensei que não fosse fazer mais influência na minha vida”, conta. Mas esse pensamento mudou quando ele começou a trabalhar em uma instituição de saúde de Bauru.
“Vi muita gente que trabalhava menos que eu e ganhava mais. Pessoas que tinham ensino médio, eram concursados e conseguiam uma estabilidade, apesar de não ser tão bons profissionais. Então, fui incentivado pela diretoria do hospital a terminar os estudos”, conta. Ele procurou o Ceesub e deve concluir o ensino fundamental em breve. “Com o diploma, poderei ter um reconhecimento que nunca tive”, avalia.
• Serviço
Em Bauru, as provas serão realizadas nas escolas estaduais Professor Luiz Castanho de Almeida, Stela Machado e Professor Aparecido Guedes de Azevedo. Informações no site da secretaria, www.educacao.sp.gov.br.