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Que Belo Monte

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O Brasil é pioneiro no uso de recursos energéticos renováveis, como os da geração hidráulica de eletricidade. Enquanto a maior parte do mundo, dito civilizado, utiliza-se de alternativas poluentes ou perigosas como as usinas tocadas a petróleo ou a energia nuclear, temos ainda recursos hídricos a explorar, com muito menos impactos ambientais. É estranho que, mesmo com a utilização de alternativas limpas ainda sejamos alvo de movimentos internacionais na tentativa de barrar a execução de projetos essenciais ao progresso do país. Os índios de Belo Monte “escreveram” uma carta ao presidente Lula, ameaçando um banho de sangue se a construção da represa prosseguir. Não sei em que língua foi escrita a correspondência. Provavelmente no idioma inglês, com o aproveitamento da estada do diretor de “Avatar” e de atrizes de Hollywood, no Rio Xingu. Estados Unidos e China são os maiores poluidores. Mas, a Amazônia é que os atrai, pelo seu exotismo.

As culturas hegemônicas ainda guardam do Brasil aquela visão edênica de que nos falava Sérgio Buarque de Holanda (Visão do Paraíso). Isto aqui é o Paraíso a ser preservado (ou restaurado) e nós, brasileiros, um bando de descendentes de Caim condenados a viver à leste do Éden. Necessitamos é de regeneração moral. E não de progresso material. Cristóvão Colombo descrevia aos reis de Espanha as terras, como “conquistas” e os nativos, como “coisas” a serem preservadas na sua beatitude celeste, exceto pelo ouro, porque “com o ouro tudo se pode fazer no mundo, e ainda se mandam almas ao Céu”.

Voltar ao Paraíso, como pensam alguns ecologistas radicais, seria voltar a uma vida só suportável, por falta de alternativas. É evidente que não poderemos continuar contaminando os céus, os mares e o solo, a menos que estejamos resignados a morrer envenenados e soterrados por detritos. Mas, justamente agora que vivemos mais e melhor, graças à ciência e à tecnologia, não seria justo impor a um povo conviver com os borrachudos, de tanga e comendo raízes. A ciência que nos trouxe até aqui haverá de nos salvar, desde que deixe de ser mera servidora do sistema capitalista de produção e de apropriação privada dos resultados do trabalho comum. Como ensinava Marx, também não se pode dar um tratamento primário às relações entre a base e a superestrutura.

Um dos maiores jornalistas brasileiros, Mauro Santayana, sobre o mesmo assunto lembrava Palamedes, personagem instigante da mitologia grega. Foi visto como homem, e não como Prometeu, que era um titã. Os gregos o consideravam o pioneiro do desenvolvimento científico e tecnológico. De acordo com o mito, a ele coube a invenção do alfabeto, do sistema de pesos e medidas, do jogo de dados, do hábito de comer nas horas certas, da técnica de cunhar moedas, da divisão do dia em horas, além de outras coisas de extrema utilidade. Platão (República, livro VII) o cita como inventor da aritmética, e lhe credita a sabedoria tática do cerco de Tróia. Ele iniciou as reflexões sobre a Terra e o destino dos homens. Para ele e os gregos, todos os caminhos são válidos à satisfação da efemeridade da vida, com o uso cauteloso da natureza. Ela não é nossa, mas está a nosso favor. Para Palamedes seria um problema de pesos e medidas, de cálculos aritméticos, de custo/benefício. Em suma, para não ser tão matemático, o problema é de parâmetros éticos. Mais política do que ideológica. Talvez o desvio tenha surgido nos dois últimos séculos – observa Santayana - em que a ciência exata se afastou da filosofia, e ao se afastar da filosofia, desamarrou-se do humanismo que lhe dera origem, com a perversão do Iluminismo denunciada pela Escola de Frankfurt. No século XVIII Nietzsche já antevia o instinto desenfreado da ciência, que tudo quer conhecer, dissecar e analisar. Oferecia como antídoto, a arte e a filosofia. Ou, na simplificação de Marinoff, mais Platão, e menos Prozac. O pessoal do Greenpace, uma entidade emblemática, jogou um monte de estrume sobre o Belo Monte. São rapazes e moças destemidas. Convivi com vários deles, intelectuais prontos a pulverizar com argumentos convincentes qualquer projeto que ponha em risco a natureza, “no estado em que se encontra”. Para tanto, nem precisam de grandes auditórios. Basta uma mesa na calçada. E vão a campo, cruzam mares, sobem montanhas, só com umas barrinhas de alimentos desidratados no bolso. O que me pergunto é se não estariam estimulando, ao serem contrários às hidrelétricas, o surgimento das termoelétricas e a queima de combustíveis fósseis, ainda mais poluentes.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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