O alimento chega à mesa em questão de horas após ser colhido. O frescor dos produtos se mistura ao calor humano do atendimento, feito geralmente pela mesma pessoa que planta e retira frutas, verduras e legumes das hortas que garantem o sustento de suas famílias há gerações. Esses fatores, exclusivos das tradicionais feiras livres, ganham ainda mais cor e sabor com o bom e velho pastel frito na hora, regado por um refrescante caldo de cana.
Ano após ano, as feiras livres testemunharam mudanças de sistemas de governo, trocas de moeda e o vaivém de crises financeiras. A tradição, atestam comerciantes, estudiosos e fregueses, é o principal esteio do ramo, que, em Bauru, é representado por 25 exposições, com a mais tradicional aos domingos, entre as quadras 4 e 7 da rua Gustavo Maciel, no Centro.
Essa feira funciona no mesmo local há 24 anos e, de acordo tanto com a Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento (Sagra) quanto a Associação dos Feirantes de Bauru (AFB), é a única totalmente regulamentada na cidade. São cuidados como esse, aliados à tradição familiar e laços de amizade, que fazem fregueses, feirantes, representantes de classe e Poder Público atestarem: a feira livre jamais acabará.
“A feira livre não vai acabar nunca, por pior que seja a crise, sempre vai existir”, afirma o secretário municipal da agricultura, José Carlos Zito Garcia. “Está em nossa meta de ações promover a regulamentação das feiras, que existem há mais de 80 anos na cidade”, enfatiza.
Para o titular da pasta, a chave para garantir totalmente as feiras sem qualquer ameaça é unir a tradição com modernidade. “Queremos a padronização das barracas, trabalhando com a associação para reorganizarmos um dos mercados mais populares, que atraem cerca de 20 mil consumidores por domingo”, enumera.
Atualmente, informa Zito Garcia, 60% dos feirantes são produtores rurais. Formalizados como empreendedores, além de aperfeiçoarem o atendimento, também encontrarão maior facilidade para investimentos e capacitação. “O trabalho reconhecido formalmente pelo município resultará em facilidades, como em compra de material de trabalho”, atribui.
A regulamentação, estima o secretário, poderá ser enviada para votação na Câmara Municipal até o final do mês que vem. “Em parceria com a associação, elaboramos uma minuta a ser mandada para o Departamento Jurídico da Prefeitura, que encaminha o projeto”, explica. “A regulamentação vai dar força conjunta aos produtores e feirantes”, considera Zito, que diz acreditar na maior viabilidade de iniciativas de capacitação técnica, a partir da regulamentação geral das feiras.
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Dificuldade
Mas nem tudo são flores para os feirantes. Alguns dos feirantes já dizem haver êxodo de consumidores entre as barracas. Os fregueses, afirmam, migram para os supermercados, que, antigamente, não abriam aos domingos e tampouco mantinham setores de hortifrutigranjeiros, encontrados anteriormente apenas nas feiras.
“Os supermercados oferecem um ambiente mais fresco, com algumas facilidades, entre elas ambiente só para crianças”, comenta a ex-feirante Edilaine da Silva Morro, que, dois anos após deixar o comércio na barraca, dedica-se a fornecer mercadoria para os supermercados. “Além de não termos quem nos ajudasse na hora, percebemos um esvaziamento na feira, onde o pessoal hoje vai mais para comprar pastel”, lamenta.