Quem acompanha o trabalho de Arnaldo Antunes não será surpreendido ao encontrar entre as páginas de “N.D.A.”, novo livro que ele lança hoje, imagens de portas, pés, guarda-chuva, ovos e placas.
A poesia que nasce do estranhamento e do inusitado é uma busca constante para ele, que trafega com igual naturalidade pela música, literatura e artes plásticas.
Em “N.D.A.” esses talentos se misturam com naturalidade. Arnaldo, como de costume, assina o projeto gráfico do livro, que parte de uma “viagem’’ que faz com a configuração gráfica das palavras, processo fundamental de sua criação. A experiência lúdica já começa pela título. O autor propõe um diálogo entre “N.D.A.” e “Nada de DNA”, seção do novo livro que já constava na antologia “Como É que Chama o Nome Disso”, de 2006, mas só agora foi publicada como parte de um volume inédito. A escolha da foto da capa, um ovo com uma vírgula desenhada na superfície, também resultou de um longo processo de “gestação”. A imagem já o perseguia desde “Ou e” (1983), seu primeiro livro de poesia. “Tem a ver com continuidade, dialoga com a ideia de nada, de DNA.” E a misteriosa e solitária vírgula? “É uma referência à linguagem. Tirada de seu lugar natural, a frase, a vírgula perde sua função e ganha outro sentido.”
Musicalidade
Entre o que é racionalizado e o que escapa das explicações, não será difícil para o leitor “ouvir” em alguns dos poemas a voz metálica do autor, ao som de guitarras ao fundo.
A musicalidade é ressaltada em muitos deles, como “Ela e Você”, que faz lembrar a canção “Essa Mulher”, do CD “Paradeiro”, e em “N.D.A.’’, que dá nome ao volume.
Coincidência ou não, o livro foi concebido durante as gravações de “Iê Iê Iê”, CD em que ele buscava a melodia perdida pelo rock nos últimos anos. A interação é frequente na carreira de Arnaldo. Poemas já viraram faixas de CD (“As Coisas”, “Dinheiro”) e canções (“O Quê”) foram publicadas como poesias.
“Uma coisa alimenta a outra. Desde o modernismo, passando pela bossa nova, pela poesia concreta, pelo tropicalismo, as fronteiras entre música e literatura já foram quebradas.”
Cartões postais
Além de imagens de exposições realizadas por ele, “N.D.A.” revela um hobby de Arnaldo: fotografar placas e escritos urbanos nas cidades que visita. Parte da coleção, iniciada há mais de dez anos, foi publicada em forma de cartões postais. A palavra escrita mesclada à imagem rende flagrantes inusitados, como no cartão que mostra uma caçamba, repleta de lixo, onde está escrita a palavra “divino”. “É um esboço de um projeto que quero desenvolver mais profundamente no futuro: fazer um livro só com esses cartões, como se fosse uma história em quadrinhos.”
• Serviço
Livro: “N.D.A”. Autor: Arnaldo Antunes
Editora: Iluminuras
Quanto: R$ 44 (208 páginas)