O fato da maioria das demolições feitas, principalmente no Centro da cidade, ter como objetivo a construção de novos estabelecimentos comerciais e de serviços preocupa profissionais do ramo e o poder público. Na avaliação do arquiteto Nilson Ghirardello, professor do Departamento de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, não é bom para a cidade segmentar o uso de seu centro urbano.
Segundo ele, é importante a diversidade de uso e de públicos para que a área tenha vitalidade durante as 24 horas do dia. Quando o espaço é ocupado apenas pelo comércios e serviços, o vazio que fica fora do horário comercial dá margens à delinquência e deterioração. Se há movimentação de moradores no local, o nível de preservação aumenta, segundo o arquiteto. “Quando há espaço ocioso, ele corre o risco de ser ocupado por atividades nem sempre edificantes”, argumenta.
Para o secretário Rodrigo Said, da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), que também é arquiteto, a ocupação de parte das dependências da estação ferroviária por duas secretarias municipais e pela Câmara de Vereadores deverá ajudar nessa diversidade citada pelo professor.
De acordo com Said, criou-se um estigma de que o Centro da cidade não é um bom lugar para morar devido à movimentação e aos barulhos intensos, além do fato de que quase tudo fecha fora do horário comercial e sobram poucas opções para lazer, cultura e alimentação.
Said aposta no poder de atração que a Câmara poderá exercer quando instalada na Estação Ferroviária para dar mais vida ao Centro, especialmente à Praça Machado de Mello e entorno.
Consumidores
A migração que ocorre quase constantemente entre os estabelecimentos comerciais no centro da cidade incomoda não apenas os comerciantes mas também os consumidores. João Henrique Poletti, proprietário de um estacionamento que fica a cerca de 100 metros da pastelaria que está prestes a ser demolida na esquina da rua Rio Branco com a Ezequiel Ramos, diz que vai sentir falta dessa opção que ele tem atualmente quando está com fome.
“O pastel que eles vendem é uma delícia. Aqui por perto não conheço nenhum outro lugar com a mesma qualidade”, reclama. O manobrista Silvanio Teles de Carvalho, que trabalha quase em frente à pastelaria, também lamentou a possível mudança. Ele conta que mesmo quando não trabalhava por perto já era cliente do estabelecimento. Quando ia ao Centro para pagar as contas, o manobrista sempre parava na pastelaria para saborear o pastel da casa ou um salgado, devidamente acompanhado de um refrigerante ou cerveja.
Além de ficar órfão da sua pastelaria preferida, Silvanio ficou também sem seu cabeleireiro predileto. Entre os imóveis que faziam parte da vizinhança da pastelaria e que foram ao chão estava o salão onde ele costumava cortar o cabelo. “A gente acostuma com alguns serviços e, de repente, eles se mudam. Isso nos deixa meio perdidos”, diz.