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Dunga, zangado e dengoso

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

No fundo, no fundo Dunga gostaria de ganhar o Campeonato do Mundo sozinho. Lula também. A eleição. Se pudessem, ambos seriam os únicos a enfrentar os adversários. O sonho do técnico da seleção é o de poder convocar 23 “dungas” para a seleção “rumo ao hexa”. Se pudesse, Lula seria ele mesmo o candidato ao tri do PT. Nem seria preciso comparar Dilma a Mandela. Muito menos dizer que ela “mistura a ternura do mineiro com a intrepidez do gaúcho”. Veja que a síndrome do poder conduz a estereótipos. Nem todo mineiro é homo e nem todo gaúcho é macho.

A questão é de autoafirmação. Quem manda sou eu. Zagalo berrava com o olhar fixo na lente da câmera de televisão: “Vocês vão ter que me engolir”. Dunga quer mostrar que também é Zangado e pode ser Dengoso. Depende da ocasião. Na entrevista à imprensa pediu desculpas por estar gripado (Atchim). Pato e Ganso são iguarias que não fazem parte do seu cardápio. Age em nome da coerência. Só os ingênuos acreditam que a coerência, no momento atual, tem a natureza pura que seu conceito histórico nos ensina. Na verdade o que existe é uma oposição maniqueísta: “Prefiro ganhar jogando mal a perder jogando bem”. Coerência é um componente volúvel da personalidade do homem que é exposto de acordo com a conveniência do momento. Eles, os técnicos, querem ganhar e calar a boca dos críticos. É um desejo que tem sua legitimidade, mas é preciso cuidado. Em 1970 o técnico João Saldanha insinuava deixar Pelé de fora. Alegou que o rei do futebol estava “ficando cego”. O diagnóstico era só de miopia leve. Quando o general Garrastazu Médici revelou aos jornalistas sua preferência por Dario, não convocado, Saldanha mandou dizer que o presidente cuidasse do país. Da seleção cuidaria ele. Houve uma crise e Saldanha foi substituído por Zagalo. O Brasil sagrou-se campeão no México, com Pelé dando um show, mesmo jogando sem óculos. Dario não foi. Médici, presidente da República no tempo mais repressivo da ditadura militar era torcedor de ir ao estádio com o radinho de pilha encostado ao ouvido. Nos porões da ditadura os presos políticos ouviam os gritos de “goool” e davam graças a Deus pelo fato dos torturadores estarem entretidos com o jogo na televisão. Em 2002, Fernando Henrique Cardoso, que não é lá muito fanático por futebol pediu o Romário. A resposta do Felipão foi mais ou menos a mesma do Saldanha. Lula não cai nessa fria de escalar jogadores. Prefere outras gafes. Na Copa de 2006, Lula fez piada com a obesidade visível do Ronaldo. Perguntou se ele estava “gordo ou forte”. Ronaldo observou que a pergunta lhe daria o direito de saber se o presidente gostava mesmo de uma cachaça, ou era só intriga. Mais recentemente Lula elogiou o argentino Messi. O goleiro Júlio César deu o troco com a sutileza de um paquiderme caminhando em chão de folhas secas: “Por que ele não vai para a Argentina. Quem sabe o país melhora com a sua saída”. Desta vez Lula foi mais inteligente. Nenhuma palavra sobre a convocação do Dunga. Em compensação criou o Bolsa Copa. Todo jogador campeão do mundo em 1958, 1962 ou 1970 vai ter direito a uma pensão especial. Tostão foi o único que recusou de antemão a sinecura.

Política e futebol se misturam em discursos patrioteiros. Dunga quer raça, sacrifício no altar da pátria, dedicação ao “sofrido povo brasileiro”. O técnico do escrete aplica aquilo que Freud abordou em uma de suas obras chamada de “Psicologia de grupo e análise do eu”. A chave do enigma está na relação indivíduo e grupo. O que faz um projeto fracassar é a falha nessa comunicação que depende de ordem mental. Veja bem... Jogador que pula o muro da concentração para ir à farra, ou sofre crise de melancolia, ou tem problemas emocionais - esses podem pôr em perigo uma competição curta, resumida a sete jogos. Para o desastre, basta uma derrota. Dunga quer é manter o foco. Evitar a emergência do narcisismo característica da espécie. Adriano, Ronaldinho Gaúcho e Pato estão nesse time. Pato vem de um casamento meteórico com uma atriz. Separaram-se antes do álbum de fotos ficar pronto. Brigaram por causa dos gastos da ex, a débito no cartão de crédito. Pato pagou o pato.

A pátria veste chuteiras, na máxima rodrigueana. Se o Brasil for campeão, Dunga vai se vingar dos seus críticos. Será um herói nacional, exultante e raivoso. Em todo caso deixou Ganso na lista dos reservas da Fifa. Quem morre na véspera é peru. Paulo Henrique Ganso entre os reservas dos reservas. Neymar, nem isso, embora Robinho, no Santos, seja seu coadjuvante. Coisas do futebol.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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