A cada dia útil de 2010, deram entrada no Fórum de Bauru, em média, mais de cinco ações de busca e apreensão de veículos em virtude da inadimplência com financiamentos. Apesar de alto, o volume é menor em relação ao ano passado, quando os protocolos diários atingiram a média de sete. Os números nem de longe representam a frustração dos consumidores que viram ruir o sonho de ter um carro na garagem ou de circular com o automóvel desejado.
Levados pelas notícias de recordes consecutivos na venda de veículos, de longos prazos para compra a crédito, da possibilidade de financiamento sem entrada e da redução do IPI (acabou em março), por exemplo, muitos deles não planejaram adequadamente a aquisição e, por fim, ficaram sem o bem. Outros foram surpreendidos por imprevistos que lhes impossibilitaram o pagamento das parcelas firmadas.
“A pessoa sonha com isso, vê uma prestação que acha que dá, mas esquece dos outros compromissos. Entre pagar o supermercado, escola do filho e o carro, o que eu faço? Vai largando o carro para pagar depois”, comenta o economista Reinaldo Cafeo. De acordo com ele, normalmente a ação para a retomada de um bem reflete um problema de estrutura financeira. É o que aconteceu com uma secretária, que aceitou conceder entrevista desde que não fosse identificada. Ela perdeu o carro há alguns meses e ainda se emociona ao lembrar do episódio.
Tristeza
“Entrei em depressão por conta disso. Quando levaram o carro foi como se me tirassem uma perna. Foi um sonho que realizei”, confessa. No entanto, pouco tempo após fazer o financiamento, o veículo caiu num bueiro. Quebrou até o eixo do automóvel. Conclusão: além da prestação do carro, assumiu parcelas da oficina. Para pagar a dívida, ela chegou a contrair outras. Com o financiamento em atraso, recebia ligações de cobrança diariamente.
“Foi praticamente um assédio, muito constrangedor. Tentei negociar, mas não houve jeito. Foi uma ilusão”, diz. Já uma operadora de telemarketing decidiu vender a casa para quitar as prestações do carro, além de outras dívidas. Sem paciência para as insistentes cobranças, encontrou na atitude radical uma forma de resolver a questão. “Agora estou sem dívidas e com uma pequena quantia para tentar financiar outro imóvel”, comenta.
Assim como ocorreu com ela, muitos inadimplentes conseguem reverter a situação com negociação. Para a financeira, não é bom negócio retomar o bem. “Tem juros de mora de 15%, 18%. Se a pessoa conseguir honrar, para a financeira é um tremendo negócio. Com busca e apreensão (a financeira) terá de eleger um advogado, depois terá de pegar o carro, levá-lo para um pátio, leiloá-lo. É muito caro para administrar essa inadimplência”, destaca Cafeo. Ele não se surpreendeu com os números obtidos junto ao Fórum de Bauru referentes à alienação fiduciária. Somados, foram divididos pelo número de meses e, depois, pelo número médio de dias úteis (20).