Articulistas

A luz e a sombra

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Os meios de comunicação que elogiam o governo Lula são considerados “vendidos”; os que criticam, “de oposição”. Nunca antes na história deste país um governo foi tão mal interpretado por conta de suas virtudes e defeitos. É muito complicado. Para horror daqueles que odeiam Lula e o PT, o Brasil de 2010 - com seus graves defeitos - é bem melhor do que o de 2002, por exemplo. Vale ressaltar que os avanços de FHC pavimentaram o caminho do sucesso de Lula. Mas ele tem seus méritos. Soube ouvir e acatar os ministros monetaristas que adotaram uma política econômica ortodoxa, sem a qual o Brasil teria sucumbido à crise mundial. Evitou os maus conselhos, mesmo os repletos de boas intenções. Tal qual em Copa do Mundo, o que vale é o resultado e o metalúrgico ganha de goleada. O próprio pré-candidato a sua sucessão José Serra tem preferido uma estratégia prudente, ao fala do “cara” que detém índice recorde de aprovação do povo brasileiro. Lula está em lua de mel com Lula. A ponto de pedir que alguém o ajudasse a desinflar o seu ego hipertrofiado com um alfinete. Os índices de desenvolvimento social melhoraram significativamente: consumo de calorias, aumento da renda real, redução da pobreza. O aumentou real do salário mínimo é outra proeza incrível já que por muitas décadas dizia-se que o aumento do salário mínimo causaria inflação e quebraria os municípios. Nada aconteceu. Lula conseguiu ainda um papel de destaque na diplomacia, a ponto de obrigar Obama e Hillary a explicações à platéia mundial.

Dá para fazer mais – como diz José Serra. Vai ser difícil mas, os governos têm que se superar. A dívida pública ultrapassou o patamar dos R$ 3 trilhões de reais. Ainda não é preocupante, mas pode se tornar um problema para os próximos governos, a exemplo do que ocorre hoje com vários países europeus. Surpreende é saber que os orçamentos destinados à saúde e à educação não cheguem a 40% do que é gasto somente em pagamento do serviço da dívida, ou seja, dos juros. Se o próximo governo não começar a reverter essa situação continuaremos a ser o “país do futuro”. Nada mais do que isto. Há dinheiro para todos os estroinas deste país, menos para os aposentados há décadas sofrendo desgastes no poder de compra daquilo que ainda chamam de “benefício”. O Senado Federal tem 10 mil funcionários para atender 83 senadores. 700 deles recebem acima de R$ 24.500. Em dez anos o Orçamento do Senado foi de R$ 900 milhões para R$ 2,7 bilhões.

O abandono escolar no primeiro ano da educação básica tem uma média de 2,2% no mundo, mas no Brasil chega a 13,8% (Unesco). As crianças que abandonam a escola antes do quinto ano podem ser consideradas analfabetos funcionais, que não terão a educação como diferencial para enfrentar a vida e ajudar o país a crescer. Na questão da qualidade estamos atrás de países como Honduras, Equador e Paraguai, na América Latina. Boa educação não se resume apenas a uma opção de investimentos no aperfeiçoamento das condições materiais das escolas, no processo de avaliação ou na melhoria dos salários dos docentes. É preciso muitíssimo mais. A educação continua sendo o mais importante desafio brasileiro desta geração. Lula fica devendo em itens fundamentais. Toda luz tem sua sombra.

O presidente diria que em dois mandatos não dá para consertar tudo o que estragaram, desde Pedro Álvares Cabral. Mérito para ele não ter tentado um terceiro mandato como aconselharam os muy amigos Chaves e Evo Morales. Mas, poderia ter feito uma reforma política, caso decidisse jogar o peso da sua popularidade na questão. Nada de positivo redundou da seqüência de escândalos que abalaram a nação. A começar pelo triste “mensalão” que muitos insistem em desmentir. Depois veio o escândalo dos aloprados, os escândalos do Senado e, por fim, o mensalão candango em plena Capital Federal.

Lula pode se inserir entre os maiores presidentes da história da República, ao lado de Getúlio Vargas e JK. Não apenas pelas suas virtudes e defeitos, mas por saber lidar com seus limites e explorar o terreno que lhe coube da melhor maneira. A exemplo dos grandes presidentes com os quais se ombreia, Lula também não soube nos livrar da política clientelista e corrupta que tantos danos causam à nação. Crescemos na economia, mas as instituições estão doentes.

O universo político ainda nos deve um estadista que conduza o Brasil a um destino mais glorioso. Talvez nem tão popular, mas com coragem de consolidar o alicerce.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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