São Paulo - É madrugada de sábado. E cerca de 300 baladeiros, na maioria jovens, pulam freneticamente em uma casa noturna em São Paulo, ao som de música eletrônica. Até aí, tudo normal. Meia hora depois, porém, o barulho para e um garoto com cara de “sou zen” sobe ao palco e pede para todos se sentarem. O povo obedece. E o rapaz continua com as instruções: “Vamos fazer a meditação da lua cheia”; “fechem os olhos”; “sintam a respiração”; “seu corpo é um presente da natureza”.
Estamos na Yoga Rave. Promovida pela ONG Arte de Viver, essa festa mistura sessões de exercícios iogues, meditação e badalação. Numa hora, a galera se esbalda na pista de dança. Na outra, entoa mantras.
Estranho? Não para Paula Junqueira, voluntária da instituição e organizadora do evento. “A música causa efeitos fisiológicos e faz com que todos entrem na mesma frequência”, teoriza. “Deixa o pessoal pronto para meditar. Provamos que mantras não são apenas para velhos em um templo.”
Sem álcool
“Aqui nós vamos cantar, meditar. E tudo sem drogas. Não vai ter cerveja, nem maconha.” Avisa, na porta, a hostess Adriana Scaff, de 23 anos, também voluntária da Arte de Viver - alguns chegam a fazer cara de decepção frente às orientações. Ela ainda explica o tipo de música que será tocada: “Uma mistura de mantras com DJ, cítara”. Explico: um “tuntuntum” com “ommmmm”.
Adriana também aproveita para “vender” a ONG (e os cursos, pagos, que oferecem na sede, na Vila Madalena). “Nós ensinamos técnicas de respiração que trazem energias positivas e ajudam a encontrar a felicidade plena.”
A veterinária Caroline Rocabado, de 20 anos, se empolgou com a promessa de alegria e realização. “É bom descobrir estradas que levam ao autoconhecimento”, afirma ela, que diz já estar no “caminho da espiritualidade”. Caroline tem o costume de meditar nos rituais do Santo Daime, doutrina que segue.
“Tomo o ayahuasca (chá alucinógeno) para me conectar com o divino. Mas acho que até dá para atingir tal nível sem substâncias, como propõem aqui.” Para ela, é bom não ter álcool na balada. “Não posso beber porque preciso me preparar para um ritual do Daime.”
Descalços
O lugar escolhido para ser a sede da primeira Yoga Rave do Brasil - outros países, como a Argentina, já tiveram suas edições - é apropriado ao perfil, vamos dizer, alternativo do público. Trata-se do IDCH, clubinho na Vila Nova Conceição onde, para começar, é preciso entrar descalço.
“Se adapta à nossa proposta”, destaca a organizadora, Paula. “Sem calçados, ficamos em contato com a terra.”
Há aqueles, porém, que estranham a mescla “ioga e dança.” “Senti um choque porque não sou de meditar”, relata o publicitário Luis Scapim, de 27 anos, que conta que está com o corpo dolorido por causa das posições de ioga que experimentou na balda.
Ele ainda teve receio de tirar o tênis: “Tomara que o banheiro seja limpo”. E, apesar de ter aprovado a festa, que definiu como “doida”, planejava ir a um bar após a Yoga Rave.
Mesmo sendo adepto da meditação (faz os cursos da Arte de Viver), o administrador Alexandre Braga, de 26 anos, achou difícil se concentrar e relaxar no meio de um monte de gente. “Aqui está abafado, falta oxigênio para respirar”, aponta o estreante.
Não é fácil atingir o estado de alegria vendido pela hostess enquanto pessoas espirram, falam ao celular e carros buzinam na rua. “Quem quer meditar em São Paulo tem de conseguir isso até na avenida Paulista”, defende Paula, a organizadora da balada zen.