Bairros

Mais um garoto é flagrado com crack

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 8 min

O consumo e o tráfico de drogas têm arregimentado um número cada vez maior de crianças e adolescentes em Bauru. Ontem, um menino de 13 anos, com aparência de quatro anos a menos, foi flagrado com 40 pedras de crack e uma balança de precisão numa viela do Jardim Ouro Verde. Arrastados para a criminalidade por conta do vício e dos meandros que envolvem a venda de entorpecentes, em média, três deles são levados ao Fórum da cidade a cada semana.

O volume é ainda mais assustador quando estão juntos, já recolhidos na Fundação Casa. Atualmente, o tráfico de drogas é responsável por aproximadamente 60% das internações na unidade local da instituição, que ontem acolhia 88 adolescentes. Daqueles que estavam em liberdade assistida (LA) em maio, 45% cometeram ato infracional envolvendo a comercialização de drogas. Se o percentual incluir porte de entorpecente, sobe para 65% dos casos.

O aumento da incidência do problema no último ano foi confirmado por sete fontes ouvidas pela reportagem, que trabalham para aplacar o crescimento desse flagelo social. Todos também constataram a diminuição da idade dos envolvidos. De acordo com a diretora da Fundação Casa em Bauru, Silvana Regina Matos Yonashiro, alguns dos internos ainda têm dente de leite. São facilmente aliciados pelo tráfico por várias razões, segundo a experiência dos entrevistados.

A maior parte deles vem de família desestruturada e pobre. Seus próprios pais, normalmente separados, já são desprovidos de qualquer perspectiva de vida. Simultaneamente, os apelos mercadológicos os atentam. Enxergam no tráfico uma forma de ganhar dinheiro rápido e fácil. Em muitos casos, o traficante do bairro é o exemplo a ser seguido. Faz sucesso e tem dinheiro. Lucrativa, a comercialização da droga ainda não resulta numa punição severa. Para piorar, o entorpecente lhes proporciona prazer.

Silêncio

No caso do crack, várias pedras são consumidas por dia. O vício é rápido e a substância devastadora, comenta o promotor da Infância e Juventude, Onilande Santinho Basso. De acordo com ele, após apreendidos, os meninos não revelam o fornecedor. A mesma informação foi prestada pela titular da Delegacia da Infância e Juventude (Diju), Rejani Borro Tiritan. Como de praxe, o garoto flagrado ontem não respondeu qualquer informação sobre as 40 pedras encontradas com ele.

Na presença do tio, apenas comentou que não era usuário. Disse, no entanto, que há mais de três meses ‘mexe com isso’. Há 90 dias, saiu da casa da família. Questionado se estava triste com a situação, negou. Ao falar da mãe e dos irmãos, chorou. A mãe trabalha como doméstica e tem mais quatro filhos. Um casal de 21 e 18 anos mora junto num outro imóvel e outros dois meninos de 6 e 7 anos, abrigados.

O do meio, de 13 anos, foi classificado pelo tio como ‘fechadão’. O adolescente comentou que parou de estudar na 3.ª série do ensino fundamental, após repetir dois anos por falta. Admitiu que não faz ideia do que será quando adulto. Seus olhos voltaram a marejar. Em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), seu nome foi preservado.

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A maioria já é usuária

A maioria dos adolescentes apreendidos por conta do tráfico é usuária de droga, segundo a titular da Delegacia da Infância e Juventude, Rejani Borro Tiritan. “Por conta do vício, acabam trabalhando. Às vezes, nem recebem em espécie”, comenta a delegada.

De acordo com ela, uma parte dos garotos vende droga para sustentar o próprio vício e outra é atraída por ser um meio fácil de ganhar dinheiro. De forma geral, os adolescentes apreendidos são pobres e as mães não têm conhecimento do que está acontecendo. Sabem, no máximo, que os filhos são usuários. No entanto, uma situação rara tem tornado-se mais frequente: casos de pais e mães que descobrem o problema e procuram a delegacia para pedir às autoridades a apreensão dos filhos.

Com a medida, esperam afastá-los do vício, que tem arrastado adolescentes cada vez mais jovens. Já são frequentes os com 14 anos envolvidos em ocorrências de venda de drogas. Antes, a maioria tinha entre 16 e 17 anos. Quase todos levados pelo crack, inclusive garotos de 12 anos. Quando estão sem consumir crack, enfrentam insônia e dores no corpo, inclusive na Fundação Casa, para onde muitos são conduzidos por determinação judicial.

“Os sintomas de abstinência dependem muito do grau de dependência”, comenta a diretora da unidade local Silvana Regina Matos Yonashiro. De acordo com ela, logo no início da internação alguns aparentam estar deprimidos, mas são integrados às atividades para se socializar. “Eles ficam muito quietos, alheios ao entorno”, comenta. Em alguns casos são levados ao Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps/AD). Já aconteceu também de um interno ser conduzido a uma clínica de recuperação.

Provenientes de famílias desfeitas, os adolescentes chegam à Fundação Casa sem saber reconhecer a figura de uma autoridade familiar e desconhecendo qualquer limite. Para piorar, vivem imersos numa situação de pobreza material. Segundo Yonashiro, o trabalho realizado pela instituição também visa fortalecer o vínculo familiar.

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Menino já tinha sido visto em um ponto de tráfico, diz Polícia Militar

O garoto de 13 anos apreendido ontem com 40 pedras de crack e uma balança de precisão já havia sido notado pela PM, em ocasiões anteriores, no local onde foi apreendido. Trata-se de uma ‘biqueira’ sob investigação por ser considerada um ponto de tráfico do Jardim Ouro Verde. As informações foram prestadas por policiais da Base Comunitária de Segurança Oeste. Como ontem receberam a informação de que havia tráfico no local (uma viela próximo à quadra 3 da rua Zenzo Kikuti), voltaram ao endereço.

Quando o adolescente avistou a viatura, correu, mas foi abordado na sequência. Aos policiais, não falou nada sobre o fornecedor. Sabe-se, no entanto, que a pedra normalmente é vendida por R$ 10,00, embora seja comprada por R$ 5,00. “O crack está entrando de uma forma bastante intensa por ser barata e lucrativa”, comentou o juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer.

De acordo com ele, o delito acaba sendo vantajoso porque, no entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ), não cabe internação. “Então, não tem uma punição que iniba a prática do crime”, comenta. De acordo com o magistrado, em média, ele recebe três novos casos de adolescentes envolvidos com o tráfico por semana. A comercialização de entorpecente desbancou o roubo, ato infracional que há um ano era o mais frequente, informa o promotor Onilande Santinho Basso.

De acordo com ele, normalmente os adolescentes vendem as drogas em casas abandonadas denominadas como ‘biqueiras’. Pegam para comercializar entre 20 e 40 pedras. “É um flagelo”, finaliza.

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Caos

Embora o aumento de crianças e adolescentes envolvidos com drogas já tenha sido constatado, o poder público pouco tem feito para brecar o avanço da situação. O ápice do problema ainda está por vir. A avaliação é do presidente do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, João Inácio Rodrigues.

“A tendência é piorar. Se os pais e responsáveis, o poder público, as entidades, os conselhos constituídos, o Poder Judiciário e as forças da sociedade não se unirem, não falarem a mesma linguagem, assumirem sua parcela de responsabilidade, a tendência é o caos social”, reitera. De acordo com ele, o crack é uma demanda nova, que nenhuma cidade está preparada para lidar.

“Aqui, menos ainda. Não oferecemos nenhuma casa de recuperação para essa demanda infanto-juvenil. São poucas perspectivas para essas crianças. O poder público tem olhado pouquíssimo para essa questão”, diz o presidente do Conselho. Rodrigues ressalta que em todo Centro Oeste Paulista não existe sequer uma comunidade terapêutica.

“A questão é negligenciada mais por parte do governo do Estado do que o municipal. O municipal tem se empenhado, tem aberto abrigos, algumas frentes no sentido do acolhimento da criança e do adolescente nessa situação de vulnerabilidade social, só que falta apoio do governo do Estado e federal.”

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Em liberdade assistida, 65% dos jovens se envolveram com droga

Dos adolescentes incluídos em maio no regime de Liberdade Assistida (LA), programa mantido por meio de uma parceria entre o Município e o Estado, 65% tiveram envolvimento com drogas. De 20, nove incorreram em casos de tráfico e mais quatro com porte, segundo a titular da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Têndolo.

A medida, aplicada pelo juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer, permite a jovens infratores a possibilidade de ressocialização sem a necessidade de internação na Fundação Casa. Quando estão na LA, eles e seus familiares são acompanhados por psicólogos e assistentes sociais, num procedimento sistematizado, explica Têndolo. Participam de palestras e conferências e recebem atendimento individual, acrescenta a secretária.

No entanto, deixar o vício é uma conquista difícil, confirma a enfermeira Luciana de Oliveira Martins, do Caps AD (álcool e droga). Ela explica que um número maior de adultos tem procurado o centro para superar a dependência química. O sucesso, no entanto, depende de uma série de variáveis como o ambiente em que o dependente vive, suas condições de vida e a vontade de parar. Se voltar exatamente para as mesmas condições que o levaram ao consumo de droga, provavelmente sofrerá recaída.

Como alguns casos dependem exclusivamente de internação em clínica, a Sebes (em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde) já encaminhou alguns adolescentes da LA para tratamento em instituições de Agudos e até de Votorantim. Até chegarem ao crack, muitos jovens começaram pelo tinner, reitera a presidente do Conselho Tutelar, Roberta Maria Almeida de Oliveira. O solvente já tem sido utilizado em Bauru por crianças de 9 anos.

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