Geral

Baixada espera homenagem a Silvino

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 6 min

Não é preciso ser morador antigo para saber onde fica a ‘Baixada do Silvino’. Historicamente comercial, o trecho situado entre a avenida Nuno de Assis e ruas Alves Seabra e Floresta continua movimentado. Talvez por conta do vaivém, ninguém ainda parou para homenagear o homem que batizou um dos pontos mais baixos da cidade.

Oriundo de Portugal, Silvino Ferreira foi um simples cidadão que na década de 30 se estabeleceu na região. Inicialmente teve bar, depois empório, lenhadora e, finalmente, um famoso posto de gasolina. Seus negócios sempre foram abertos no mesmo trecho, onde ainda vivem seus descendentes. No final da semana passada, Oswaldo Bertucci Ferreira, o Vadico, completou 75 anos com a mágoa de não ter visto o município prestar qualquer deferência a seu pai.

Ele e uns amigos da região estão novamente se movimentando para garantir uma demonstração pública de estima a Silvino. Vadico teme que, com o passar dos anos, a indicação ‘Baixada do Silvino’ se perca. Isto porque, desde que foi inaugurado no início da década de 80, o Terminal Rodoviário passou a assumir a referência do local. Atualmente, os herdeiros de Silvino correm contra o tempo. A expectativa é de novas mudanças na região com o advento da Nações Norte.

Evolução

“O trecho evoluiu muito”, diz Vadico. A ‘baixada’, por exemplo, sofreu com inundações históricas, como a de 1974. “Esse local é uma confluência de rios. Tem o Bauru, que é o canal principal e passa na Nuno de Assis”, comenta o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito. De acordo com ele, o Córrego Água do Castelo estará sob a Nações Norte e o Córrego das Flores sob a Nações. “Juntam-se todos próximo à Rodoviária”, acrescenta Brito.

As águas conseguiram afugentar Antonio Martins Costa, 63 anos, do início da ‘baixada’. Em 1994, ele saiu do trecho onde nasceu por conta dos alagamentos. Foi morar na alameda Dama da Noite, endereço próximo, com a mãe. Voltou com a família após a conclusão de um alto sobrado. É proprietário do prédio onde funciona um bar desde 1949. Lembra do grande brejo que deu espaço ao Terminal Rodoviário. Segundo Antonio Martins, com a construção da avenida Nuno de Assis, a região ‘subiu’ quase dois metros.

Para se adequar à nova realidade, fechou uma janela da casa, que ficou bem próxima à rua. Acredita que a Nações Norte trará benefícios, mas aponta a atual ‘Baixada do Silvino’ como perigosa também por conta da precária iluminação.

____________________

Canal duplo

Embora as obras viárias impermeabilizem o solo, conseguiram minimizar as grandes enchentes que atingiam a ‘Baixada do Silvino’. Não que as águas em dias de forte precipitação ainda não invadam estabelecimentos comerciais situados atualmente no local, mas a intensidade é menor. Nada comparado a décadas atrás. A expectativa, agora, é que a Nações Norte aplaque ainda mais o problema.

“Ela terá um canal duplo para suportar (a força das águas). Todas as ruas terão galerias de águas pluviais. É um grande investimento. Mas não existe um sistema de combate à enchente que seja 100% eficaz. A população também tem de ajudar e não jogar lixo nas ruas. Uma chuva muito forte pode colocar o sistema em xeque”, admite o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito. No entanto, de acordo com ele, o risco de inundação é pequeno.

“Por ser fundo de vale é bem baixo (o trecho). À medida que essas bacias vão sendo ocupadas - com grandes redes de mercado e universidades -, é necessário investir cada vez mais em captação de água. Até o reuso da água deve ser pensado porque vai chegar um momento em que o sistema será colocado em xeque”, afirma Brito.

____________________

Casa mais antiga

A casa mais antiga de Bauru, um dos últimos remanescentes da década de 20, está situada próximo à ‘Baixada do Silvino’, na quadra 2 da rua Araújo Leite. Não significa, no entanto, que a cidade tenha começado por lá, advertem historiadores. Quando foi erguida, a região era tomada por propriedades rurais.

Mas o único imóvel que restou ali está prestes a ruir. “A casa ficou no eixo da rua. Era feita de amarração com tijolo. A viga era de madeira com os tijolos assentados em cima. Ela sofreu uma reforma talvez há 40 anos”, comenta o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito.

O imóvel, embora tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural do Município (Condepac), está prestes a ruir - inclusive sobre quem passa pela calçada, conforme o JC demonstrou em várias oportunidades.

____________________

Lembranças emocionam os moradores antigos da região

Aos 91 anos, Victório Negrato ainda se lembra com riqueza de detalhes de quando chegou em Bauru, justamente na ‘Baixada do Silvino’, onde vive com a família até hoje. Não fazia muito tempo que seus pais (com sete filhos) haviam chegado da Itália, no porto de Santos. Problemas de ordem familiar os trouxeram ao Interior de São Paulo, especificamente a Bauru.

Foi na ‘baixada’ que ele se casou e viu os filhos brincarem de bola e pé na lata, nas ruas de terra. Trabalhou na empresa de óleo Anderson Clayton, na Companhia Paulista, e por anos teve frete na avenida Pedro de Toledo. Ao final de cada jornada, voltava à ‘baixada’, onde o filho José Roberto mantém seu bar. O negócio foi aberto em 1968 por outro filho já falecido.

“Eu vi o presidente Getúlio Vargas passar por aqui. Ia pernoitar na fazenda Val de Palmas”, relembra Victório. Já José Roberto presenciou artistas como Tonico e Tinoco, que se apresentavam num circo, sempre instalado lá próximo. Também viu muitas brigas.

Na baixada, os agricultores de outros municípios vinham trocar frango por cachaça, leitoas por roupas e sapatos etc. O escambo continuou até meados da década de 70. Hoje, o comércio resiste. Como uma ilha, entre avenidas e córregos canalizados, a ‘baixada’ perdeu alguns estabelecimentos, que fecharam suas portas. O trânsito rápido de carros atrapalhou alguns negócios, até porque o estacionamento de veículos num trecho está proibido.

Contato

Na Bauru antiga, a ‘Baixada do Silvino’ era o primeiro ponto de contato dos lavradores que vinham de fora com a cidade, segundo o pesquisador da história da cidade Gabriel Ruiz Pelegrina. De acordo com o que ele escreveu ao Jornal Bauru Ilustrado, os trabalhadores desciam das jardineiras para fazer as suas compras. Vinham de Rio Verde, Quilombo, Iacanga, Soturna (hoje Arealva), São Francisco, Santa Isabel e Jacuba.

“Também como uma das portas da cidade, o local converteu-se em parada obrigatória dos caminhões leiteiros, que quase sempre transportavam sitiantes residentes em locais distantes das linhas de jardineiras”, acrescenta Gabriel.

Ele explica que a gleba de terra que veio a se chamar Vila Seabra tinha a denominação de Fazenda das Flores. Pertencia ao coronel Manoel Alves Seabra. No início da década de 20, ele fundou a vila que levou o seu nome, vendendo-a em lotes. Em 1927, construiu na rua São Paulo uma ampla casa onde por muitos anos residiu com a sua família.

A ‘Baixada do Silvino’ também foi palco de um homicídio famoso. Na quadra 1 da rua Floresta, o coronel Azarias Leite foi alvejado e morto por Joaquim Honorato, numa emboscada tramada por influentes políticos da época. Era dia 19 de outubro de 1910, destaca Gabriel Ruiz Pelegrina, que pesquisa a história da cidade.

Comentários

Comentários