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Emprego e demografia

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 2 min

Talvez em função do declínio da taxa de natalidade nas duas últimas décadas, a sociedade brasileira tenha deixado de pensar os problemas da evolução demográfica, esquecendo a enorme influência que eles exercerão na sua qualidade de vida num futuro próximo. Projeções recentes do IBGE mostram que em 2030 (em pouco menos de uma geração), teremos uma população de 216 milhões, sendo que 151 milhões de pessoas estarão na faixa entre 15 e 65 anos. E pouco mais de 10 milhões acima dos 65 anos. .

Esses números têm tudo a ver com o envelhecimento da população e seus efeitos no universo da previdência e também com as expectativas diante do enfraquecimento do ritmo da oferta de empregos nos setores industriais mais dinâmicos devido à queda dos investimentos orientados para as exportações e a substituição da produção interna pelas importações.

No primeiro caso, precisamos acertar nossas contas com o setor da previdência social (principalmente a previdência do setor publico). Nas condições atuais, isso coloca um problema quase insolúvel de equilíbrio fiscal. Sua simples expectativa ameaça o equilíbrio monetário, o que torna mais difícil a redução da taxa real de juros. Este é um problema bastante sério, quando sofisticados economistas, usando sofisticadas técnicas econométricas, afirmam que a taxa de juro real de equilíbrio no Brasil é de “7% a 8%”! Só mesmo essa dupla sofisticação poderia produzir um resultado teratológico como esse!

O segundo problema que precisamos manter no nosso radar é que teremos de dar emprego de boa qualidade a 151 milhões de brasileiros em 2030, quando 70% da população terá entre 15 e 65 anos e a de mais de 65 anos representará algo próximo de 13%, contra os atuais 6,7% de idosos. É evidente que esse objetivo não poderá ser alcançado apenas com a atividade agrícola e mineradora ou com a economia de baixo carbono, as duas primeiras certamente poupadoras de mão de obra devido ao desenvolvimento tecnológico. Precisamos expandir a produção industrial e de serviços, complementando o mercado interno com as exportações. Isso seguramente não será feito com o “câmbio mais valorizado do mundo”!

Qual a razão econômica para uma aplicação, no Brasil, ter rendido em 2009, na Bovespa, de 7% a 8% ao mês em dólares? Não me venham com a explicação que isso se deve “à oferta e à procura”, porque no Brasil é a formação do câmbio futuro que determina o presente... Como disse o sábio Thomas Carlyle, basta ensinar um papagaio a soletrar “oferta” e “procura” e teremos um economista...

É preciso evitar que a excessiva valorização do Real continue destruindo as cadeias produtivas e levando as empresas a se transferirem para o exterior, transformando-se de exportadoras (que criavam emprego) em importadoras (que dispensam empregos). Se tudo continuar como está, em 2030 seremos um grande exportador de alimentos e minérios e um grande e miserável repositório de desempregados! 

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento -contatodelfimnetto@terra.com.br

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