Articulistas

O ateu religioso

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Saramago já era um escritor conhecido quando o confronto com a divindade fez dele um “iconoclasta”. Gostou e quis mais. Portugal vetou o seu “Evangelho segundo Jesus Cristo” e ele exilou-se em Lanzarotti, uma ilha vulcânica do Arquipélago das Canárias. A definição mais bela de Deus que jamais ouvi ou li é de sua autoria: “Deus é o silêncio do universo, e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio”. Para quem segue as místicas e os místicos judeus, cristãos, muçulmanos ou laicos, o que Saramago disse é suficiente. O único autor da língua portuguesa premiado com o Nobel de Literatura, na verdade colocou todo o seu pensamento e obra na luta contra a violência em nome de Deus, a palavra mais vilipendiada das palavras humanas. O mesmo objetivo dominou Nietzsche na parábola de Zaratustra, com uma das suas afirmações mais provocativas: “Deus é a nossa maior mentira” e “melhor nenhum deus, melhor que cada um construa o seu destino”. No fundo ambos tinham profundo espírito solidário, igual ao que se prega em qualquer igreja. O melhor da religião é a criação de hereges que ela provoca. Pelo seu sentimento humanista só um bom ateu pode ser um bom cristão. Mais que um jogo de palavras o pensamento de Ernest Bloch contribui para a compreensão que quero dar a um Saramago menos amargo para os espíritos mais sensíveis: “Só um cristão pode ser um bom ateu”. Em A ilusão de Deus (2006) o biólogo britânico Richard Dawkins dizia de si mesmo: “É preciso um altíssimo grau de religiosidade para fazer um ateu como eu. Os meus valores estão empapados e cristianismo. Às vezes dizem-me: porque é que você, ateu, se preocupa tanto com Deus ou se ocupa dele tantas vezes? Porque Deus está aqui. Onde está Deus? Na cabeça de cada um de nós”.

Em sua novela Caim, Saramago recria a imagem violenta e sanguinária do Deus da Bíblia judaica, “um dos livros mais cheios de sangue da literatura mundial”, como disse um dos mais prestigiosos bibliófilos, Norbert Lohfink. Deus é apresentado no antigo testamento como um senhor feudal, dono de vidas, que trata dos seus adoradores como servos da gleba e chega a exigir de Abrão o sacrifício do seu filho mais querido. A Bíblia cristã redime essa imagem quando apresenta Cristo como vítima da incompreensão dos homens quanto a sua missão de reconciliar a humanidade com Deus. O autor português quis fecundar inteligências com as suas provocações, assim como Nietzsche. O Deus assassino da última novela de Saramago esta presente em todos os rituais bélicos de nosso tempo. Nos atentados terroristas cometidos por supostos crentes muçulmanos e na sangrenta e eterna briga entre árabes e judeus, ambos descendentes de Abraão, segundo o Velho Testamento. Suas fabulações fantásticas destinam-se a alertar para a epidemia de cegueira que se alastra no mundo, não só visual como racional. As pessoas matam inocentes e depois perguntamos “por que?”, como na tragédia bauruense do Higienópolis. Assistimos à morte do cidadão, transformado em “cliente” no mundo consumista - disse o autor. Deus deveria estar na cabeça de cada um, ou nos nossos corações, como preferia Santo Agostinho. A ausência dele nos lugares onde deveria estar - não só nos templos - é que leva à miséria e à intolerância.

Criador de imaginários fantásticos, não é fácil ler Saramago. A densidade quase barroca da sua escrita me cansa. Fiquei nos livros considerados blasfemos. A sua opção de escolher um tipo de pontuação diferente – com que pretendia dar um tom de oralidade ao seu texto, idêntico aos dos contadores de história - me deixa exausto.

Saramago partiu para o nada, como se referia à morte, transformado em milhões de átomos. Se há alguma coisa que me irrita em relação a ter que morrer um dia, é que vou daqui sem perceber nada disto. Perceber isto aqui, onde estamos, já é difícil. Imagine transformado em poeira cósmica. Onde quer que esteja, Saramago permanecerá na história da literatura mundial. Da sua partida diria um sábio - e não nos esqueçamos que para ser sábio é preciso ser singelo: “Morreu, como se morre”.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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