Tribuna do Leitor

Tragédia leva à reflexão individual


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O bar está fechado. Os vizinhos e familiares não vão esquecer tão já da cena da tragédia. Três famílias vítimas da violência urbana, dos dramas mal resolvidos, da falta de respeito de um para com o outro. O açougueiro que estava no bar, o comerciante que vendia a cerveja e o agente penitenciário que estava surtado. De quem é a culpa?

Tenho minha opinião formada sobre determinados assuntos e depois de atuar por mais de 10 anos na área jornalística policial, me sinto à vontade para dizer o que penso. Acho que casos como este deveriam levar, antes de tudo, à reflexão.

Aceitamos o fim das internações psiquiátricas como se isso fosse a solução. Não pensamos e não participamos das discussões quando o assunto estava em pauta, simplesmente aceitamos. Claro que sou favorável a um tratamento digno daqueles que sofrem algum tipo de doença psiquiátrica e não compactuava com o tipo de tratamento que era dado àqueles que viviam em hospitais específicos. Basta lembrar os choques.

A falta de atenção com o fim dos manicômios colocou a sociedade em apuros. Somos quase que ‘obrigados’ a conviver com inúmeros ‘surtados’ no dia a dia e pessoas, como eu, devem refletir. Uma discussão no trânsito, um desacordo e, do outro lado, uma pessoa surtada pode significar o fim.

E de quem será a culpa? Do médico que não teve onde internar? Da família que não cuidou para que ele tomasse o remédio? Do trabalho dele que leva ao estresse extremo? Da sociedade que não se preocupa com suas células?

A chegada das penitenciárias em Bauru é outro item que podemos relacionar com o assunto e parabenizar e até votar de novo naqueles que travestiram o lobo de carneiro para enfiar güela abaixo esse mico. Graças a esses ‘gênios’ que trouxeram presídios no lugar de indústrias temos que nos ‘vigiar’ para não fazer parte da lista de vítimas. É a violência urbana.

Sem desviar do assunto, a vida deveria fazer parte das nossas reflexões. Todos os dias ouço falar: "digas com quem andas e te direi quem és"; não vá a locais suspeitos para não correr riscos e tantos outros. Tudo isso para evitar episódios como o ocorrido no bar ‘vermelho’ do Higienópolis. Mas há casos que nos surpreendem. O “Zé do Açougue” é um deles.

Se o comerciante estivesse num local suspeito, a justificativa seria que ele frequentava estabelecimentos não recomendáveis. Mas ele só foi tomar a sua cervejinha diária. Sem maldade. Querido por aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo, o Zé do Açougue só cumpria sua rotina, enquanto o Japa vendia cerveja.

O que eu quero dizer é que a sociedade precisa, com urgência, parar de procurar justificativa, precisa rever seus conceitos e analisar as situações. O que estamos verdadeiramente fazendo para mudar a sociedade? Só outdoor não adianta. Temos que sentar, conversar e discutir. Conhecer nossos vizinhos de casa, sala e trabalho. Olhar para quem está do nosso lado.

Analisar nossas vidas talvez seja a solução. Procurar as nossas ‘feridas’ internas e curá-las. Vamos deixar as lojas de luxo e as farmácias que só oferecem antídotos para as nossas doenças externas. Vamos sangrar o nosso interior e saber porque a gente age ou reage dessa ou daquela maneira, vamos para os divãs para os cursos de autoconhecimento e vamos descobrir o que há na nossa essência. Só assim vamos deixar de conviver a cada dia com uma tragédia. Coragem....

Rita de Cássia Cornélio

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