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Dr. Automóvel: Deterioração natural

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

Meus amigos do Clube dos Carros Antigos sabem bem do que vou falar. Na semana passada recebi pela internet um e-mail de um fato inusitado que aconteceu em Ituiutaba – MG. Na década de 60, um cidadão comprou um Chevrolet Impala vermelho zero km, para impressionar uma garota. Depois de um tempo, a respectiva garota desistiu dele (do cara, não do Impala) e o trocou por outro. O sujeito ficou inconformado e colocou o Impala em uma garagem e a lacrou, nunca mais a abrindo ou mexendo no carro. Consequencia disto: ele morreu há pouco tempo atrás, solteiro e avarento, e seus sobrinhos, herdeiros legais, descobriram a bendita garagem e o que encontraram lá dentro? Um belíssimo Impala perfeito, com quase 50 anos de idade, completíssimo e com baixíssima quilometragem. Tudo original, selinhos colados no parabrisa, etiquetas no motor, frisos impecáveis, enfim, um carro antigo quase zero, original.

Claro que alguns colecionadores já caíram em cima como urubus em carniça, e consta que um deles chegou a oferecer R$ 200.000,00 pelo carro, o que não foi aceito. Mas, será que o carro está realmente em condições de apenas recarregar a bateria, abastecer e sair andando? É óbvio que não. O carro vale pela raridade e pelo estado em que se encontra, sem retoques, frisos e acabamento originais, bancos com estofamento da época, tudo absolutamente original. Mas o tempo é implacável e algumas coisas se deterioram naturalmente.

As borrachas, por exemplo. Os pneus provavelmente estariam completamente deformados, pois todo pneu é poroso e o ar vaza naturalmente com o tempo, portanto estariam murchos e o carro apoiado sobre eles por quase 50 anos, tornando-os irrecuperáveis. A própria borracha estaria toda trincada e esfarelando, coisa comum em pneu velho. As guarnições de portas, batentes e coxins também estariam deteriorados e deformados. Vejamos as portas, por exemplo, que ficaram fechadas todo este tempo, comprimindo a guarnição. Quando abertas de novo, provavelmente estariam coladas na borracha ou esta não voltaria à sua posição natural, permanecendo achatada. Assim, em uma eventual e obrigatória restauração, todas as borrachas do veículo deverão ser substituídas, o que não é nenhum problema insolúvel hoje em dia.

A suspensão deverá ser totalmente desmontada, limpa e lubrificada novamente, pois a graxa original já se transformou em qualquer outra coisa que não graxa. As coifas das articulações deverão ser trocadas, assim como todas as buchas de borracha.

Os lubrificantes ficaram armazenados por longo período em contato com o ar e consequentemente se oxidaram, alterando sua composição e perdendo a função original como protetor e lubrificante. Desta forma, a caixa de direção deverá conter uma gosma onde antes tinha óleo, portanto deverá ser totalmente desmontada e limpa. Claro que todos os retentores deverão ser trocados. O mesmo ocorrerá no câmbio, cujas engrenagens poderão estar até enferrujadas pela falta de camada lubrificante. Nada grave de se corrigir, basta desmontar tudo, limpar muito bem e remontar, trocando os retentores, juntas e vedações e colocar óleo novo.

No motor é que a coisa pega. Por ter sido armazenado com todos os fluidos dentro, terá que ser minuciosamente desmontado e conferido peça por peça, pois a água do radiador provavelmente deve ter provocado uma corrosão interna severa. O bloco deverá ser desmontado, lavado internamente e desentupidas todas as galerias, pois uma borra de oxidação deve ter se formado e obstruído orifícios e passagens, como a válvula termostática e o próprio radiador. Já a parte baixa do motor terá seu óleo alterado para uma graxa pastosa fedorenta (quem conhece sabe...) que precisará ser completamente removida, sendo as peças limpas e remontadas. O carburador fatalmente estará colado, pois a gasolina velha virará uma laca e travará tudo. Terá que ser feita uma desmontagem e limpeza completas com troca do reparo. Já o tanque de combustível provavelmente deverá ser trocado por estar podre e furado.

Isto tudo aconteceu com este belo Impala por causa de uma atitude intempestiva de seu proprietário na época. O correto em uma armazenagem por longos períodos é colocar o carro sobre cavaletes para não forçar os pneus e as molas. Drenar todos os fluidos corrosivos (água e combustível) completar os lubrificantes, engraxar juntas e proteger a carroceria com cera e capa.

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