Dono de um tom de voz suave e uma educação fina, Kaká evita bater de frente com a personalidade forte do técnico Dunga. O camisa 10 do Brasil, portanto, procura encontrar justificativas para as ofensas do treinador contra um jornalista na entrevista oficial do jogo diante da Costa do Marfim, no domingo.
Apesar da vitória brasileira na segunda rodada do grupo G, Dunga se irritou com um repórter que estava ao telefone e balançou a cabeça durante uma de suas respostas. Até o fim da entrevista, o comandante brasileiro balbuciou palavrões contra o profissional em várias oportunidades. “Cada um tem seus motivos para dar certas respostas, aquilo que acha o que é melhor falar. O Dunga sofreu muito com as críticas, ele pode ter seus motivos para tomar essa atitude”, afirmou o craque do Real Madrid, em entrevista coletiva ontem.
Mesmo com toda a pressão da Copa do Mundo sobre a badalada Seleção Brasileira, Kaká diz que Dunga mantém uma postura suave no contato diário. Na concentração, o treinador conta até piada para os jogadores. “O Dunga é um cara que brinca, é muito tranquilo em relação ao grupo. Com a gente, as motivações dele são outras”, comparou Kaká.
Kaká gargalhou quando lembrou do comentário de Diego Armando Maradona sobre o segundo gol de Luís Fabiano contra a Costa do Marfim. O técnico da seleção argentina negou que a jogada tenha sido obra da “mão de Deus”, pois o atacante do Brasil ajeitou a bola com o braço, e achou o lance “tragicômico”, por causa do riso do árbitro francês Stephane Lannoy. “São coisas curiosas”, riu Kaká. “Prefiro lembrar do lance, que foi muito bonito. Não vale a pena comentar o resto. Agora, vindo do Maradona, é até engraçado. Ele também marcou um gol com a mão”, acrescentou o meia do Real Madrid.
Maradona se orgulha do gol irregular que fez contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986, definido por ele como fruto da “mão de Deus”. Luís Fabiano usou a mesma explicação ao falar sobre as suas matadas com o braço após aplicar dois chapéus em jogadores marfinenses e antes de mandar a bola para as redes. Quando o telão do estádio Soccer City exibiu os toques com o braço de Luís Fabiano, parte do público se manifestou com vaias. “Se o telão mostrasse todos os lances, isso poderia ser avaliado pela Fifa. Mas é algo que deveria ficar claro. Caso contrário, o certo seria tirar o replay dos telões e ninguém comentar nada”, opinou Kaká.
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De olho nas oitavas
Principal armador ofensivo da seleção brasileira, Kaká lamentou por ficar fora do jogo contra Portugal, na rodada final do Grupo G da Copa do Mundo, nesta sexta-feira, em Durban. No entanto, o meio-campista disse já estar de olho no adversário das oitavas de final.
Na vitória de 3 a 1 sobre a Costa do Marfim, que valeu a classificação do Brasil para as oitavas, Kaká foi expulso por receber dois cartões amarelos - o segundo veio após uma cotovelada no marfinense Keita. “Fico triste por não poder jogar mais um jogo de Copa, um jogo importante contra Portugal. Agora é ter paciência e nos prepararmos para as oitavas. É fazer o possível para que o Brasil vença e termine em primeiro”, falou o meia do Real Madrid.
Na próxima fase, o Brasil enfrentará um adversário do Grupo H da Copa. Os candidatos são Suíça, Chile e Espanha. “A gente tem visto um grupo muito equilibrado, três times com chances. Temos acompanhado porque é de lá que virá nosso adversário”, disse. “Daí para frente [oitavas], a preocupação aumenta. Se errar em algum detalhe, você está fora, volta para casa. A seleção está pronta, a evolução dentro da competição é muito importante. Isso dá uma confiança para chegar bem às oitavas”, acrescentou.
Criticado na estreia contra a Coreia do Norte, Kaká mostrou mais confiança na segunda rodada e disse não temer cobranças por atuações mais qualificadas no Mundial. “Eu passei por muitas dificuldades físicas durante a temporada. Sempre tive uma vida de atleta, uma vida regrada. Hoje, eu sei da importância que é ter um [bom] condicionamento físico. Cheguei em um patamar não por acaso e tive que aprender com esse tipo de cobrança”, afirmou.
Inocência
Em seu terceiro Mundial consecutivo, Kaká também admitiu mudar o comportamento no restante da competição sul-africana. Ontem, o camisa 10 reiterou sua inocência no lance que provocou sua expulsão contra a Costa do Marfim, mas disse que adotará nova postura em campo devido aos critérios disciplinares da arbitragem. “Foi um lance normal, que acontece em todos os jogos. Infelizmente houve uma simulação [de Keita]. Se eu fosse culpado, chegaria para o Dunga e pediria desculpas”, disse.
Com apenas três expulsões na carreira - nas duas anteriores, ele ainda defendia o São Paulo -, Kaká admitiu que o seu histórico de boa conduta dentro de campo não é suficiente para evitar problemas. “Preciso me policiar um pouco mais dentro de campo. As arbitragens estão sendo muito severas”, concluiu.
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Meia ataca Juca Kfouri e vê perseguição
Kaká negou ontem ter dores decorrentes de lesão no púbis, mas considerou a possibilidade de passar por cirurgia no local após a Copa. “Muitos médicos não aconselham e é uma coisa que terá de ser analisada profundamente após a Copa”, disse ele, que teve sua temporada comprometida no Real Madrid pelo problema.
Pouco antes, Kaká respondeu, irritado, a uma pergunta do repórter André Kfouri, da ESPN Brasil - filho do colunista da Folha de S.Paulo, Juca Kfouri -, sobre as supostas dores. “Há algum tempo os canhões do seu pai são disparados contra mim. As críticas que ele vem fazendo não são profissionais, mas porque ele não aceita minha religião. Porque eu sou uma pessoa que segue Jesus Cristo. Eu o respeito como ateu, e gostaria que ele me respeitasse como alguém que professa a fé em Jesus Cristo”, disse Kaká.
Em sua coluna anteontem, Juca escreveu que o atleta sofre com o problema e que, segundo médicos ouvidos por ele, poderia encerrar a carreira prematuramente. Em seu blog no UOL, Juca negou crítica ao atleta por ele ser evangélico e que só não concorda com o “marketing religioso”.