Se depender da Polícia Militar (PM) de Bauru, as instituições de ensino superior da cidade se transformarão em grandes aliadas do trabalho desenvolvido pela corporação. A ideia é que as universidades e faculdades locais incentivem seus alunos a desenvolver pesquisas e monografias sobre segurança pública, como forma de colaborar para que as ações de policiamento sejam cada vez mais aperfeiçoadas.
As discussões entre ambas as esferas vêm ganhando força nas últimas semanas e, de acordo com o comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPM-I), tenente-coronel Nelson Garcia Filho, a proposta tem boas chances de ser bem sucedida. Mas, como já se passou praticamente metade do ano letivo, a intenção é que as parcerias que vêm ocorrendo de forma esporádica nos últimos anos sejam estreitadas a partir do ano que vem.
“Como um trabalho de conclusão de curso tem um ano de duração, esperamos começar a aproveitar os estudos desses alunos no final de 2011. Nosso objetivo é aproveitar o conhecimento produzido por todas as universidades que a cidade possui e melhorar o nosso trabalho para diminuir os índices de criminalidade”, comenta.
Pesquisas de todas as áreas de conhecimento poderão se voltar ao tema da segurança pública, garante Garcia Filho. À polícia, interessam principalmente os trabalhos teóricos e práticos que indiquem caminhos para uma maior aproximação dos policiais junto à comunidade. Mas projetos voltados à melhoria do sistema de gestão ou ao desenvolvimento de equipamentos de segurança, por exemplo, também serão bem-vindos.
“O trabalho da polícia tem um aspecto multidisciplinar e as ideias que germinam nas faculdades podem ser bem aproveitadas. Um estudo científico pode, por exemplo, identificar os problemas de uma determinada região da cidade e traçar qual seria a melhor forma de a polícia abordá-los”, enfatiza.
Segundo o comandante, a iniciativa segue o exemplo de outras cidades que puseram em prática o mesmo projeto, como é o caso próximo de São Carlos. “Depois que as instituições abraçarem a ideia, os professores começarão a estimular o desenvolvimento dos projetos científicos pelos alunos para algo que irá beneficiar a comunidade”, considera.
Entre as possibilidades, estudantes de direito, educação física, psicologia, comunicação, assistência social, administração, entre outros cursos, poderão participar da parceria com suas próprias sugestões ou com a orientação dos docentes. “Existe um campo vasto a ser explorado. E acho que o fato de poder desenvolver um projeto que vai ser posto em prática irá motivar muito os alunos”, acredita Renato Rocha Zapater, professor do curso de Relações Internacionais do Instituto de Ensino Superior de Bauru (Iesb-Preve).
Estereótipo
Mas, para que a parceria se consolide de maneira definitiva, antes será preciso transformar a baixa receptividade que o estudante universitário, de maneira geral, ainda tem em relação à PM. Nesse sentido, na opinião de Zapater, a proposta de trabalho conjunto entre a corporação e as instituições de ensino também será valiosa para uma mudança de mentalidade.
“É preciso superar essa barreira e acredito que essa porta que se abre será importante para mudar esse estereótipo. Essa desmistificação é possível e tem de ocorrer”, frisa, salientando que esse esforço poderia ser estabelecido, inclusive, por um projeto de estudantes do curso de marketing.
Segundo a professora doutora da Universidade estadual Paulista (Unesp), Célia Retz, que já orientou trabalhos dentro da universidade com a colaboração da PM, a resistência da juventude à polícia como instituição ainda é intensa, mas pode ser modificada se houver empenho, também, da própria corporação. “Toda vez que alguém precisa de um policial, é numa situação ruim. Então, acho que o policial precisa estar mais presente também fora dessas situações, para dissociar essa imagem negativa.”
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Participação da sociedade
Para professora doutora da Universidade estadual Paulista (Unesp), Célia Retz, a população também precisa se conscientizar de que a segurança não é uma responsabilidade exclusiva da polícia e precisa ser garantida por todos os cidadãos. “É uma questão cultural bastante equivocada. Na Inglaterra, por exemplo, as pessoas se sentem responsáveis pelas demais e exercem um controle social não só no sentido coercitivo, mas de proteção mesmo”, frisa.
Se os laços entre PM e universitários se fortalecer, Garcia Filho afirma que, mais do que absorver conhecimento, o Batalhão também pretende dar acesso a parte das informações produzidas dentro da unidade. Para Carlos Alberto Rufatto, coordenador do núcleo de trabalhos de conclusão de curso da Instituição Toledo de Ensino (ITE), este intercâmbio é um dos aspectos mais interessantes da proposta.
“O fato de a gente ficar sabendo do interesse da corporação já é um passo muito importante. Os alunos poderão ir até o Batalhão para coletar dados que forem interessantes para a elaboração de seu projeto e, depois, quando tiver concluído o trabalho, voltar para divulgar a sua pesquisa aos policiais”, avalia.