As atenções do mundo econômico estarão voltadas para o encontro do G.20 neste final de semana no Canadá quando os líderes dos principais países tentarão obter algum progresso na discussão de dois temas: a flexibilização da política de câmbio fixo praticada pela China há dois anos e medidas para desatar o nó da crise financeira européia que aflorou na Grécia há seis meses. A pauta oficial prevê o avanço de discussões em torno de novas normas regulatórias para o sistema financeiro, mas pouca gente duvida que a questão que está na mente de todos é a da flutuação da cotação da moeda chinesa, o Yuan.
Depois que o Banco Central da China anunciou a disposição de permitir uma valorização controlada do Yuan em relação ao dólar, este passou a ser o tema dominante da reunião, gostem ou não os próprios chineses. Ficou claro que eles não pretendem colocar em discussão com o resto do mundo uma questão que consideram “doméstica”, conforme declarou o vice-ministro de finanças Cui Tiankai: “o Yuan é a moeda da China e isso não é uma questão que a comunidade internacional deva discutir...”
Não adianta soprar a vuvunzela porque não vão conseguir evitar o assunto, ainda mais que estarão por lá os presidentes Obama e Lula, dois dos protagonistas da cena mundial que mais têm cobrado a correção do regime cambial chinês devido à perturbação que produz em alta escala no comércio internacional. A China tem tirado uma enorme vantagem nas transações com o resto do mundo ao manter sua moeda subvalorizada em relação ao dólar, na ordem de 35% a 40%. No comércio com o Brasil a desvantagem é ainda maior devido à supervalorização do Real em torno de 15% a 20%. Muitas pessoas acreditam que a economia chinesa tem produtividade maior, é mais eficiente que a brasileira porque não fazem direito a comparação: ela tem alguns fatores de produção favoráveis, um diferencial de juros e salários menores, mas no chão de fábrica as indústrias brasileiras que lá se instalaram mostram que a produtividade por homem é praticamente a mesma.
Ao insistir num processo de valorização controlada, a autoridade monetária chinesa introduz um risco nada desprezível e que já produziu resultados catastróficos no passado. Se os operadores tiverem a informação que vai valorizar a moeda, começa a entrar capital em excesso e não pára até terminar o processo de valorização. Por esse motivo acredito que a China não vai repetir o mesmo movimento e encontrará um outro mecanismo para, num dado momento, fazer o que tem que ser feito e depois deixar flutuar. O Yuan vai procurar o seu equilíbrio num ponto que ninguém sabe exatamente qual é, mas que seguramente é alguma coisa num ponto 30% a 40% superior ao nível atual. O potencial de ganho que tem esse processo mostra porque ele não poderá se realizar a pouco e pouco.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP - ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento