Pelo menos a América do Sul se salvou na Copa do Mundo da África do Sul. Das 16 seleções que voltaram para casa, entre elas ex-campeãs como Itália e França, nenhuma é do Cone Sul. A região prossegue bem representada pela Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, pela ordem alfabética. Arrisco dizer que a final será sulamericana. O time do Dunga vai ter que melhorar muito se quiser chegar lá. Brasileiros e portugueses fizeram um jogo de cavalgaduras, talvez por ser entre duas seleções que falam a mesma língua. Decidiram resolver suas questões (em)patadas. Como diz o Falcão comentarista, os nossos jogadores aguardam a jabulani no pé, estáticos no gramado, burocráticos. O saudoso técnico Gentil Cardoso, que treinou o Flamengo durante anos, costumava dizer que “quem se desloca recebe, quem pede tem preferência”. Isto já nos anos 1950. Hoje, os atletas do futebol brasileiro correm menos e querem ser servidos onde estão. Pior que os adversários sabem disso. Há muito desconfiaram que os pentacampeões e primeiros no ranking da Fifa não são imbatíveis. O time é ‘manco”. Só ataca pela direita, por onde Maicon apóia. Lúcio, o beque de antigamente, é obrigado a fazer as vezes de meio campista e fica aberta uma enorme brecha na nossa defesa. Até os limitados nortecoreanos perceberam.
No jogo contra Portugal, o técnico Dunga deixou no hotel o seu abrigo fashion, desenhado pelo estilista Alexandre Herchcovitch. Não é que seja feio, mas se fosse um número menor cairia bem melhor. Ainda bem que a temperatura mais amena de Durban, cidade praiana, obrigou o nosso coach a abdicar daquele pesado tricô de lã de gola alta. Tenho a impressão que aquela gola rolê deixa a sua cabeça do tamanho de um grão de bico. Na sexta-feira, Dunga dava seus pulinhos de desespero na beira do gramado vestido com uma camisa laranja, sob o abrigo marrom. Nada contra as cores contrastantes. Caberia um alerta por parte dos auxiliares. Camisa laranja é exclusividade do time holandês. Quem nasce nos Países-baixos são “oranges” por causa do principado. Dunga tentou disfarçar. É verdade. Colocou uma camiseta verde por baixo. Só mudou de time. Laranja com verde são as cores da Costa do Marfim. Entendi bem a razão do sapato preto com meia branca. Matei a charada logo que vi pela televisão. Homenagem ao primeiro aniversário da morte de Michael Jackson. Merecida.
O importante no futebol é bola na rede. Quando a Seleção Brasileira avança numa competição importante, como está ocorrendo agora, o País também reforça sua crença na própria capacidade de construir um futuro melhor. Não se trata de um pensamento ufanista, nem de excesso de patriotismo, mas sim de uma realidade que contagia e que desperta a autoconfiança nas pessoas. Quando a população veste as cores nacionais, quando as bandeiras do País tremulam nos automóveis e nas sacadas dos prédios, quando as vitrines das lojas exibem suas mercadorias em verde e amarelo, quando as crianças se enfeitam de Brasil, todos somos tomados da sensação de pertencimento e de amor à Pátria. Amanhã vamos jogar contra o Chile no mata-mata. Que melhor adversário poderíamos querer? É do Cone Sul e estamos habituados ao seu estilo de jogo. Com Robinho, Kaká e Elano de volta, as chances de sucesso são muito grandes.
Se o time do Brasil se derreter nesta reta final, nem por isso o mundo irá acabar. Acabou, sim, para milhares de alagoanos e pernambucanos vítimas das enchentes. Lula mais uma vez marca um gol de placa ao largar tudo para ir amassar barro nas cidades destruídas. Liberou meio bilhão de reais para a defesa civil socorrer as comunidades que sequer televisão têm para assistir aos jogos. Caudais violentas levaram tudo. O presidente Lula amadureceu muito no final do mandato. Abriu mão de se reunir com Barack Obama e outros craques do estadismo mundial, no Canadá. Preferiu perder a oportunidade de se expor à mídia internacional com novas firulas. Deixou de ser “o cara”. Ficou aqui, com o povo sofrido do Nordeste. Nem a Dilma levou a tiracolo.
Em 2014, a Copa do Mundo será no Brasil. Não sei se será a oportunidade para o Brasil faturar o sexto ou o sétimo troféu. Mais importante ainda será projetar o País pela competência em organizar certames de repercussão global. Melhor ainda se souber adicionar ao setor público substancial arrecadação para cobrir os gastos com os jogos, sem falcatruas. Depois será a vez da Olimpíada, em 2016. Consagração final ou vexame.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC