Bairros

Inverno cria clima de charme e aconchego

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 6 min

Imagine um dia de inverno, com temperatura beirando 15 graus e um vento que sopra insistentemente. Baseado nesta situação, escolha: se tivesse opção, ficaria em casa, debaixo dos cobertores, vendo um bom filme e degustando uma bebida quente ou enfrentaria as baixas temperaturas e sairia para a rua?

Em Bauru, a primeira alternativa parece ser a preferida, especialmente quando a cena descrita acima coincide com um dia da semana como o domingo, por exemplo, em que a maioria das pessoas não tem a obrigação de sair de casa. O resultado inclui bairros desertos, pouco trânsito e casas com janelas fechadas.

E, mesmo quando os compromissos obrigam os bauruenses a deixarem a toca e enfrentar as baixas temperaturas, as mudanças provocadas pelo clima frio logo podem ser percebidas. O inverno, carinhosamente chamado por seus admiradores de ‘friozinho’, exige que roupas e casacos mais pesados sejam retirados dos armários e aumenta a procura por programas mais intimistas.

A psicóloga Keila Isabel Botan, 26 anos, encara a estação mais fria do ano com otimismo e não mede esforços para entrar no clima. A preferência, segundo ela, se dá por diversos fatores, entre eles o charme característico do inverno.

“Adoro esta época do ano. Percebo que as pessoas se vestem melhor, ficam mais chiques. Além disso, o clima torna os ambientes aconchegantes, as pessoas costumam conviver mais próximas e os aromas se sobressaem”, analisa a psicóloga, que já tirou sua coleção de lenços, blusas de gola alta e casacos do armário.

Além de repaginar o visual para encarar a mudança de temperatura, Keila adota o hábito de consumir bebidas quentes com maior frequência. No inverno, o tradicional leite com achocolatado do café da manhã é substituído pelo charmoso cappuccino, composto de leite em pó, café solúvel e chocolate em pó. E, no período noturno, até mesmo as bebidas alcoólicas são preteridas por ela.

“Sou fã de cappuccino. De manhã, preparo a mistura em casa mesmo, e tomo para despertar. Acho que esquenta e traz conforto. Já durante a noite, troco qualquer barzinho por uma boa cafeteria. Muitas vezes, vou sozinha mesmo. Sento, aprecio meu cappuccino, leio um livro, enfim, tenho um tempo de reflexão, um tempo para mim”, explica.

A preferência por programas mais intimistas e caseiros também se reflete nas locadoras de vídeo, que registram aumento de até 50% nesta época do ano. De acordo com Eliana Ladislau, gerente de uma loja do segmento, a locação de filmes nos meses de junho e julho costuma saltar de 10 mil para 15 mil por mês.

A advogada Tatiane Zambonato da Silva, 27 anos, e a jornalista Déborah Mendes de Mattos, 23 anos, são duas dos milhares de bauruenses responsáveis por este aumento. No inverno elas costuma ver pelo menos um filme pela semana e, se a proposta for sair à noite ou ficar em casa vendo um DVD, a preferência é por ficar em casa.

O costume de Déborah vem dos tempos da faculdade, que cursou em Ponta Grossa, no Paraná. “Lá a região é muito fria e as pessoas evitam ao máximo sair de casa. Foi quando comecei a alugar filmes para passar o tempo. Mesmo com a mudança para Bauru este hábito permaneceu”, explica Débora, que aproveita o friozinho para se atualizar nos lançamentos do cinema. “Chego ao ponto de pegar uma lista de indicados para Oscar e não sossego enquanto não vejo tudo. Na companhia dos amigos e do namorado é ainda melhor”, afirma.

Já Tatiane atribui seu gosto por filmes e séries à sua personalidade caseira. “Não sou muito de sair e, quando estou em casa, não assisto aos programas de televisão. Sempre que tenho um tempo vago, estou vendo filmes”, justifica.

De acordo com ela, o inverno é responsável por acentuar o costume que, com a presença do namorado, se torna um de seus programas prediletos. “Gosto muito de romance e comédia. Neste tempinho frio, não há nada melhor”, avalia.

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União esquenta o clima

No inverno, uma das melhores opções para fugir do frio é usar e abusar do calor humano. É com base nesta premissa que um grupo de amigos troca os bares e baladas dos finais de semana por programas mais intimistas.

O reduto do grupo é, na maioria das vezes, a casa da família Polidoro, no Jardim Carolina. No cardápio, muito vinho e fondue. A ideia, segundo eles, surgiu no inverno passado e já se tornou hábito quando o frio se aproxima.

“Estávamos cansados de sair à noite e ter de pagar para passar frio. Foi quando tivermos a ideia de comprar um aparelho de fondue. De lá para cá, já perdemos as contas de quantas vezes nos reunimos em casa para apreciar a iguaria”, explica a jornalista Gabriela Peres Donatto, 24 anos.

Para o grupo, comidas e bebidas típicas do inverno são apenas mais um argumento para provocar a reunião, já que o real intuito é a diversão. “É uma opção barata e quente. Além disso, a diversão começa no momento que vamos ao supermercado juntos para comprar as coisas e só termina muito depois do fondue acabar”, justifica.

Com a constatação de que o inverno é propício para programas caseiros, o comerciante Carlos Prando, sócio-proprietário de uma loja de nacionais e importados, decidiu criar estratégias especiais para manter o ritmo de vendas no inverno. Nesta época os fondues de queijo e de chocolate, os cafés e os vinhos entram em destaque no menu do estabelecimento.

“Para quem quer consumir aqui, tivemos de criar um ambiente especial, com aquecedor à gás. Mas também damos a opção da pessoa levar e consumir em casa. Com isso, a venda de fondue sobe 100% em relação às outras épocas do ano e a de vinhos aumenta, em média, 300%”, afirma Carlos.

Além do aumento nas vendas, Carlos aponta a mudança de perfil de clientes como outra característica do inverno. “Geralmente as pessoas se vestem com mais elegância. Até a loja ganha um ar especial, mais romântico: fica cheia de casais”, destaca.

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Inverno inspira produções elegantes

Nada de barriga de fora ou decotes exagerados. No inverno a produção tende a ser mais velada e, portanto, mais elegante. De acordo com Carla Costa, coordenadora da área de moda do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) de Bauru, a sensação de que as pessoas se vestem com mais charme no inverno é fruto do distanciamento da vulgaridade.

“No inverno, não tem como sair de casa com pouca roupa. Este fato, por si só, já melhora o visual das pessoas. Além disso, as peças desta estação geralmente são feitas com tecidos encorpados e a ordem é abusar da sobreposição, fatores que deixam o look mais chique”, analisa Carla.

Além de elegância, ela destaca que o inverno pode ser sinônimo também de gastos a mais. Isto porque o requinte dos tecidos e as peças de alfaiataria tendem a encarecer a produção.

“É verdade que as roupas de frio são mais caras, porém existe a opção de alterar a combinação de peças e criar visuais diferentes. Esta época é marcada por acessórios, que, se variados, podem se tornar um diferencial”, ensina.

E, de acordo com Carla, neste inverno a tendência é de muito brilho, estampas que fazem referências a ídolos do pop e do cinema, como Michael Jackson e Marilyn Monroe, meia-calças, echarpes e cachecóis de materiais variados, além das maxibotas. “É um inverno ousado, com toques das cores flúor que fizeram sucesso no verão, porém com muita sofisticação”, descreve Carla.

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