Com mais uma morte registrada ontem, este semestre já é o mais violento dos últimos três anos em Bauru. Ao todo, segundo levantamento feito pelo Jornal da Cidade, foram contabilizados 24 assassinatos de janeiro até ontem, antes mesmo do mês de junho se encerrar. O número já representa dois terços do limite considerado aceitável pela Organização das Nações Unidas (ONU) para todo o ano, de 10 homicídios para cada 100 mil habitantes. Como Bauru tem aproximadamente 360 mil moradores, o patamar tolerado é de 36 homicídios até o final de 2010.
Dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo apontam que a quantidade de assassinatos na cidade vem crescendo nos últimos anos. De janeiro a junho de 2009 foram computados 18 homicídios no município, índice 33% abaixo do atual e 28% acima do primeiro semestre de 2008, quando foram registradas 14 ocorrências desta natureza. De todas as mortes violentas consideradas pelo JC em 2010, cinco aconteceram apenas nos últimos 10 dias .
No último dia 18, Alexandre Zambonaro assassinou a tiros Maurício Yamanoi, mais conhecido como Japa, proprietário do bar Japa Lalá, e também um cliente do estabelecimento, o comerciante José de Nazaré Mendes, pai do proprietário do bar do Português. Quatro dias depois, Hélio de Almeida assassinou brutalmente a ex-mulher Clarice Lisçarça Rosa a facadas, diante das duas filhas do casal.
No dia 25 a vítima foi José Bonifácio Souza Lima, que conversava em frente à sua casa, na Vila São Paulo, quando um homem desceu da garupa de uma motocicleta e efetuou disparos em sua direção com um revólver calibre 38. A Polícia Civil já tem pistas de quem possa ser o assassino, mas preferiu não divulgar o nome do suspeito.
O crime mais recente aconteceu na noite do último domingo. Nivaldo Pense, 54 anos, foi encontrado baleado na calçada da rua São Valentim, no Jardim Redentor, e chegou a ser socorrido, mas morreu ontem no Hospital de Base. Ainda não se sabe quem efetuou os disparos.
Mesmo diante da frequência com que homicídios vêm sendo registrados em Bauru, o tenente-coronel Nelson Garcia Filho, comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPM-I), acredita que o aumento dos números, principalmente nos últimos dias, independe da ação da polícia. “Por exemplo, o crime passional. Nesse homicídio, é difícil você conseguir intervir diretamente. O que a polícia pede é que, se constatado o problema, a família fique sempre de olho no tratamento médico da pessoa e nas suas atitudes”, salienta.
O comandante explica ainda que cinco desses homicídios considerados mortes violentas pelo JC, registrados nos últimos 10 dias, podem ser reflexo do crescimento da cidade, do estresse e das pressões impostas pelo modo de vida contemporâneo. “Em um deles, existe a possibilidade de o assassino estar com surto depressivo. Isso faz parte da vida moderna. Nós temos uma cidade grande. Não é raro você ter uma situação dessas”, explica. Sobre os outros crimes, Garcia Filho explica que a maioria aparenta ser por motivo de vingança, tendo como evidências assassinos desconhecidos e homicídio premeditado.
Mas, para o professor de psicologia social da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Celso Zonta, o crescimento no número de homicídios neste ano pode não passar de mera coincidência. Segundo ele, sem uma análise comparativa com o que vem ocorrendo no País, não é possível correlacionar as estatísticas ascendentes de Bauru com uma eventual tendência de comportamento.
“Crimes passionais ou provocados por pessoas com problemas psiquiátricos podem ocorrer em qualquer contexto. Não dá para dizer que as pessoas estão menos tolerantes, porque nada de anormal aconteceu na cidade neste ano para que os indivíduos se tornassem mais agressivos.”
Zonta acredita, inclusive, que o limite máximo de 36 homicídios preconizado pela ONU possa nem ser atingido até o final do ano, em razão de uma possível queda na quantidade de assassinatos a partir de agora. “Assim como tivemos um aumento agora, pode haver uma redução até dezembro, até mesmo porque, no contexto social e econômico, o Brasil vive um momento de otimismo. Mas não é possível dizer realmente o que irá acontecer daqui em diante”, observa.
____________________
Polícia já tem pistas do assassino de autônomo
A Polícia Civil já tem pistas de quem possa ser o autor dos disparos que mataram o autônomo José Bonifácio Souza Lima, 43 anos, no último dia 25. De acordo com o delegado titular do 1º. Distrito Policial (DP) de Bauru, Dinair José da Silva, o inquérito já foi instaurado e testemunhas serão ouvidas nos próximos dias para tentar confirmar a identidade do suspeito.
“Estamos procedendo as diligências e aguardando os laudos do IC (Instituto de Criminalística) e do IML (Instituto Médico Legal). Quando conseguirmos identificar o autor, pediremos sua prisão temporária, mas ainda não vamos divulgar nomes para não atrapalhar as investigações”, afirma.
Silva revela que, na casa da vítima, foram encontrados cinco cartuchos de espingarda calibre 12, fato que está sendo considerado na averiguação do homicídio. Conforme apurou o JC, uma das linhas de investigação tenta desvendar se Souza Lima estaria envolvido com atividades criminosas no Mato Grosso (MT) e teria sido assassinado em razão de um acerto de contas. O delegado, no entanto, não confirmou a informação.