Nova York - Um dia após dar fortes declarações de rechaço às acusações de espionagem feitas pelos EUA, a Rússia baixou o tom ontem e disse que o episódio não deve prejudicar as relações entre os países, que têm evoluído recentemente. Na véspera, apesar da reação de Moscou, Washington já havia procurado reduzir a temperatura do caso ao evitar dirigir críticas diretamente à cúpula do governo russo e descartar danos à relação.
“Esperamos que o caso da prisão nos EUA de pessoas suspeitas de espionar para a Rússia não atinja nossas relações”, disse um funcionário da Chancelaria russa, que na véspera havia qualificado como “infundadas e descabidas” as acusações dos EUA. Moscou já admitira que alguns dos detidos são russos, mas rejeitara as acusações.
O Departamento de Estado disse ontem não prever aplicação de “nenhuma medida diplomática suplementar por enquanto”. Segundo o porta-voz P.J. Crowley, os EUA desejam “superar” o incidente.
Na última segunda, o Departamento de Estado americano anunciou a detenção na véspera de 10 dos 11 acusados de integrar um programa de espionagem da agência de inteligência russa SVR, uma sucessora da soviética KGB.
O 11.º suspeito fora preso ontem em Chipre ao tentar sair da ilha mediterrânea em direção à Hungria. Ele foi, no entanto, liberado após pagar fiança e ontem desapareceu. Chipre emitiu mandado de prisão contra o suspeito.
Segundo a denúncia apresentada, agentes secretos da Rússia viviam havia anos nos EUA como casais americanos e tinham como objetivo se inserir em “esferas de tomada de decisão”, recrutar fontes e enviar informações ao país. Para analistas, não é vantajoso a nenhum país retroceder na política de “recomeço” das relações proposta pelo americano Barack Obama.
EUA e Rússia são parceiros hoje em assuntos como o impasse nuclear iraniano, a logística de abastecimento do conflito afegão e o desarmamento nuclear, entre outros.
Suspeitos
Paralelamente ao desenrolar diplomático do episódio, pipocam desde a última segunda detalhes das histórias dos suspeitos que parecem saídas de roteiros de filme. Uma das detidas, referida como Anna Chapman, 28 anos, foi apelidada de “femme fatale” e “Bond girl” pela beleza, e seu perfil no site de relacionamentos Facebook tornou-se um chamariz na Internet.
Segundo o governo americano, Chapman residia em Manhattan (Nova York), dirigia um negócio imobiliário e seduzia potenciais fontes de informação.
Outro detido, o “canadense” Donald Heathfield, obteve um mestrado em administração pública em Harvard há dez anos, tendo sido colega do atual presidente mexicano, Felipe Calderón.
Uma terceira presa, Vicky Peláez, 55 anos, de origem peruana, mantinha uma coluna no “La Prensa’’, jornal nova-iorquino de língua espanhola.
Ela é casada com Juan Lázaro - outro dos presos, nascido no Uruguai-, flagrado, segundo o FBI (polícia federal), recebendo dinheiro e reunindo-se com representantes de Moscou em 2007.
Aparentemente, nenhum dos suspeitos conseguiu informações sigilosas, motivo pelo qual eles são acusados de não se registrar como agentes estrangeiros e lavagem de dinheiro, mas não de espionagem.