O cantor e compositor João Bosco mostra toda intimidade que tem com dois de seus parceiros mais antigos: o violão e o palco. Sem roteiro e excessos - como acha que deve ser -, o músico mineiro retorna ao Alameda Quality Center pela série Grandes Nomes para show às 21h. Em Bauru desde ontem, João Bosco recebeu a imprensa e falou sobre o atual trabalho, sua relação com a música, além da falta que sente do pai e do poeta Vinícius de Morais, ambos falecidos em julho de 1980.
“Eu gosto de vir um dia antes, ficar tocando meu instrumento, pensando na música, me concentrando e, quando tem gente interessada em conversar, eu posso fazer isso com tranquilidade, sem me preocupar com voz, nem com tempo”, comenta o compositor em bate-papo com os jornalistas. Apesar de dedicar-se à divulgação de seu último trabalho, “Não vou para o céu, mas já não vivo no chão” (2009), João Bosco garante que subirá ao palco sem roteiro prévio e do jeito que se sente muito à vontade: sozinho.
“A vida inteira eu compartilho a minha música com outros instrumentistas, mas já gravei dois discos solo, ambos ao vivo. Solo é um show que eu tenho hábito de fazer, comecei assim. É um tipo de relacionamento com o instrumento que eu tenho uma prática muito grande. Eu chego com meu instrumento e começo a tocar, uma palavra vai puxando a outra, uma canção a outra, um assunto o outro e vou construindo uma história através de um repertório que é completamente espontâneo”, adianta.
Apaixonado pelo palco, Bosco diz ser este o espaço onde encontra-se consigo mesmo e com o público. “E lá que eu acho a razão de tudo, a minha vida toda se resume naquilo ali. É como se eu tivesse me preparando todo o tempo para chegar ali, naquele instante, onde estou com meu instrumento, onde a gente quer ver como as canções chegam até as pessoas e o que a música pode produzir nelas. Eu adoro aquele espaço porque é ali onde tudo acontece”.
Sem excessos
Indicado ao Prêmio da Música Brasileira na categoria disco, “Não vou para o céu, mas já não vivo no chão” é uma espécie de síntese da vida e dos mais de 40 anos de carreira de João Bosco (o músico concorrerá ainda em outras duas modalidades: cantor da MPB e voto popular).
O principal diferencial do álbum, para o compositor, é a valorização da música, em sua essência. Sem excessos e interferências, Bosco diz que neste disco a canção fala por si. “O disco se parece muito comigo porque ele é praticamente de voz e violão. Até nas cinco canções gravadas com um quinteto, tivemos a capacidade de nos subtrair no sentido de deixar a música ser o que ela é”, afirma.
“Como intérprete, minha preocupação também foi de deixar que a canção fale mais por si, onde o essencial é o que fala mais alto. E isso era um coisa que eu não tinha feito; talvez nos outros há um ou outro momento assim, mas não o disco inteiro”, completa.
Segundo Bosco, em um momento em que a música tem tantas finalidades, esta é para refletir. “Esse disco traz uma música para o indivíduo, para a sua reflexão, um momento onde ele possa conversar consigo mesmo através daquelas canções. E as indicações à prêmio são merecidas, porque este foi um disco pensado de maneira muito profunda, que não caminha pelo lado do excesso, ao contrário, caminha cada vez mais ao lado do essencial”, conclui.
• Serviço
“Beef Street Music - Série Grandes Nomes” apresenta João Bosco hoje, a partir das 21h, no Alameda Quality Center (altura do quilômetro 335 da Rodovia Marechal Rondon). Mais informações pelo telefone (14) 3321-5000.
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30 anos sem Vinícius de Moares e sem o pai de Bosco
Emocionado, João Bosco falou sobre o aniversário de morte de Vinícius de Moraes, que hoje completa 30 anos. A data, 9 de julho de 1980, ainda antecede em um dia a do falecimento do pai do compositor.
“Foi no trajeto indo para o cemitério enterrar meu pai que alguém chegou para mim e disse que o Vinícius tinha acabado de falecer. Então, esses dois dias são muito significativos: eu perdi um pai verdadeiro e, no dia seguinte, um amigo que foi um pai para mim”, comenta.
Dedicação
É ao poeta que João Bosco credita seu descobrimento e dedicação à música popular brasileira. “Ele foi um conselheiro importante, o sujeito que me fez abrir o coração para a música brasileira. Eu estava no primeiro ano de engenharia, quando ele me alertou que eu devia conhecer a MPB mais profundamente. Ele viu em mim um talento, que eu devia estudar e exercitar”, agradece.
“Foi por causa dele que eu me dediquei à música, acabei perdendo esse ano de engenharia por frequência, porque parei de ir à escola para me dedicar à música profundamente”, lembra.
Para Bosco, o que mais lhe chamava atenção em Vinícius era a generosidade encontrada tanto no que ele era como ser humano quanto no poeta.
“Ele foi um poeta cuja poesia se assemelhava muito ao ser humano Vinícius. Você não sabia se era o poeta ou a poesia que era generosa, mas eu acho que ambos. E acho que todo mundo sente um pouco a falta de um Vinícius como uma pessoa imprescindível nos dias de hoje”, finaliza.