Bairros

Em 1 dia, chuva supera volume de junho

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Após 36 dias, finalmente a chuva chegou a Bauru. Entre o final da noite de segunda-feira e ontem, o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) calculou que choveu 41,6 milímetros - até as 22h40. Para se ter uma ideia da importância da precipitação, durante o mês de junho inteiro choveu apenas 28 milímetros, marca ultrapassada somente com a chuva desta terça-feira. Para quem sofre de problemas respiratórios, o alívio é grande.

O biólogo Luiz Augusto Gonçalves da Rocha ressalta a relevância da chuva para os vegetais. Segundo ele, em períodos de estiagem, elas perdem muita água. “As árvores grandes podem perder cerca de 400 litros de água por dia”, exemplifica.

E a consequência dessa perda de água aparece diretamente nos lençois freáticos. O especialista em botânica explica que, quando a planta perde água, ela absorve mais dos lençois freáticos e, assim, diminui seus níveis. “É um processo de sobrevivência. A planta precisa dessa água. Como ela perde muito, precisa repor. Junto com isso, há a própria acumulação de água nos lençois, que é bem menor quando não há chuva”.

Ele afirma que a precipitação de ontem serviu para abastecer os mananciais. Pelas suas projeções, o volume atingido poderá garantir que haja água suficiente para não prejudicar o abastecimento na cidade mesmo que não chova por mais 30 ou 40 dias.

Solo arenoso

Outro ponto que vale destacar é a agricultura. Em épocas de chuva precedidas de grandes estiagens, é comum ver agricultores agradecendo a chegada da precipitação. Porém, o biólogo Luiz Rocha explica que os benefícios realmente existem, mas podem vir acompanhados de alguns problemas para a natureza.

“A chuva aumenta a produtividade da agricultura, porém, traz alguns problemas. Nosso solo é arenoso. Então, ele necessita de proteção, como o plantio de árvores nas áreas de agricultura. Essa proteção serve para amenizar o impacto da chuva. E isso não é feito. Assim, quando chove, o solo é levado. É neste momento que aparecem problemas como erosão e assoreamento dos rios”.

Ele ainda aponta outro perigo que a chuva pode trazer em relação à agricultura: a destinação de produtos químicos aos rios. “O nosso solo não tem muita argila e não absorve os nutrientes. Os agricultores adubam o solo e ele não absorve isso completamente. Esses produtos estão na superfície. E quando chove? Para onde vai isso? Para os rios”, afirma.

Em relação ao período de estiagem, Rocha aponta para uma tendência alarmante. “O nível normal de chuva para Bauru é 1.250 milímetros por ano. Estamos tendo uma variação muito grande. Já tivemos até 900 milímetros, que é muito próximo do semi-árido nordestino, de 800 milímetros. O que isso significa? Que ao derrubar árvores e construir pastos, estamos criando um grande deserto”.

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Pessoas com problema respiratório festejam a despedida do tempo seco

Nivaldo Venturini, de 63 anos, foi um dos muitos que ficaram felizes com a chegada da chuva. O aposentado tem apneia, doença respiratória que se manifesta durante o sono, e se sentiu aliviado quando viu as primeiras gotas caindo. “Para mim, a chuva foi excelente. Com o clima muito seco e com o meu problema respiratório, era frequente eu ter sangramentos no nariz. Agora com a chuva, isso para”, conta.

A pediatra Adriana Barbieri Hurikawa explica que, em períodos de seca, a umidade relativa do ar cai e várias doenças respiratórias se agravam. De acordo com ela, a baixa umidade faz com que se junte secreção nas vias respiratórias e cria ambiente propício para bactérias e vírus.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o índice de umidade relativa do ar recomendado é acima de 60%. A médica afirma que, quando fica muito tempo sem chover, o número de pacientes que procuram seu consultório com problemas respiratórios aumenta cerca de 30% a 40%. As doenças que mais se agravam são conjuntivite, rinite, amidalite e laringite.

Para amenizar a situação, Adriana aconselha à população, quando o clima estiver seco, a sempre lavar os olhos com soro fisiológico e, principalmente, aumentar a ingestão de líquidos.

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Cuidados com acidentes

O coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, explica que, em um primeiro momento, a chuva não gerou acidentes ou reclamações da população. “A terra estava muito seca. Quando está assim, a chuva não causa estragos no solo, pois ele suporta mais. Se continuar a chover amanhã (hoje), como o solo estará mais molhado, poderá haver algumas erosões”.

Ele chama a atenção para outro perigo: os acidentes em telhados. A chuva faz com que apareçam avarias na cobertura das casas e, consequentemente, as goteiras. Com isso, muitos sobem para tentar consertar e acabam ocorrendo os acidentes.

“As pessoas devem verificar isso quando não está chovendo. Na chuva, o telhado fica escorregadio e as telhas ficam moles. Há até mesmo problemas com fios de alta tensão. A pessoa pode tomar um choque e cair. Uma queda pode se tornar uma tragédia”, alerta.

Apesar disso, o coordenador ainda avalia como positiva a chegada da chuva, em especial, na questão dos incêndios. “Em matagais, a probabilidade de pegar fogo agora é praticamente zero. Já em casas de madeira, a velocidade do fogo diminui. Um incêndio tem muitos fatores, mas a chuva e o aumento da umidade relativa do ar podem diminuir a rapidez da propagação do fogo em dois ou três minutos. E esse tempo é fundamental para salvar uma casa”.

Em relação à visibilidade, o Aeroporto Moussa Tobias registrou o caso de apenas uma aeronave que vinha de São Paulo e não conseguiu realizar o pouso na manhã de ontem.

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