Turismo

Visões do paraíso

Por Eliane Barbosa | Com Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 7 min

Emociona pensar que foi justamente ali, no extremo sul da Bahia, que o Brasil teve início. Se iniciarmos a Costa do Descobrimento pela ponta mais ao norte, a uns 80 quilômetros de Arraial D’Ajuda, temos Belmonte. Menos conhecida dos turistas, a cidade é importante pelo seu casario e pela beleza histórica. O destaque é o rio Jequitinhonha.

Supõe-se que os “primeiros sinais de terra” que a tripulação de Cabral avistou tenham sido produtos do arraste de troncos, folhas e raízes levados ao mar desde a foz do rio. Mais para baixo está Santa Cruz Cabrália, local da primeira missa do Brasil, em 26 de abril de 1500, assistida pelos índios tupiniquins e aimorés.

Foi realmente lá que a esquadra cabralina aportou depois que viu o monte que resolveu chamar de Pascoal. As primeiras visões do paraíso deixaram os visitantes extasiados. Até hoje o mesmo impacto domina os visitantes.

Arraial D’ Ajuda tem uma atmosfera especial que atrai estrangeiros dos mais distantes países. A cidade é poliglota. Ali vivem argentinos, italianos, holandeses, austríacos, norte-americanos, portugueses e sei lá mais de que nacionalidade. Há até um casal de búlgaros. Não são aventureiros sem eira nem beira. São executivos, também paulistas que largaram tudo para viver num ambiente mágico e de alta qualidade de vida.

Nessa Esquina do Mundo, eles são donos de pousadas, hotéis, quiosques na beira da praia e restaurantes. Incrível a história de vida de Nícola, a garota filha de diplomatas austríacos, criada em colégios da Europa. Aos 18 anos foi passar as férias em uma pousada de um conterrâneo amigo, apaixonou-se pelo jardineiro nativo e com ele se casou. Rendeu-se à atmosfera do lugar, à vegetação luxuriante e ao mar que jamais encontraria em seu país. A paisagem inspira o amor.

Hoje, ela e o marido, Aelson, tocam o restaurante Rosa dos Ventos, na alameda dos Flamboyants. Nícola atende a clientela de avental, diz como são preparados os pratos, como a Piranha no Alho Macho (veja a receita) ou o Robalo na Folha de Bananeira. Estão felizes para sempre.

Outro caso é da Analisa, argentina que, com o marido italiano, tem na rua do Mucugê o grill Boi nos Aires, com as carnes de corte típicos do seu país, maise os frutos do mar e da terra. A maioria deu certo nos seus negócios e nem pensa em voltar. Outros fazem qualquer coisa para ganhar o suficiente para comer, beber e curtir a vida de bermuda e chinelo.

Quando dizem que a preguiça é um pecado capital, eles respondem que a inveja também. No sul da Bahia seria impossível jogar basquete: a bola arremessada na sexta só entraria no sábado. Ninguém tem pressa.

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Passeio deve incluir igrejas do século 16

Durante a estada do turista em Arraial d’Ajuda, vale perambular pelo centro histórico. Comece pela Mina Nossa Senhora d’Ajuda. Dizem que suas águas são milagrosas e curam até dor-de-cotovelo. Repare na placa com os seguintes dizeres: “Quem se banha nesta água sempre volta ao Arraial”. À sua volta foram surgindo as primeiras edificações onde os jesuítas repousavam após chegarem em canoas ou animais de montaria.

Caminhando falésia acima, os turistas encontram o Santuário de Nossa Senhora, considerada a primeira igreja construída no século 16. Ela começou a ser feita em 1549 pelos jesuítas trazidos na expedição de Tomé de Souza, primeiro governador geral do Brasil. Eles vieram a bordo da nau “Ajuda”, onde fora entronizada uma imagem de Nossa Senhora. A imagem tornou-se padroeira do Arraial.

Em 15 de agosto, os baianos comemoram a sua chegada com uma romaria que lota a cidade, sob o repicar dos sinos. De cima da falésia, onde está a igrejinha, dá para ver toda a orla, os coqueirais e reparar nas andorinhas que voam no céu azul.

Na vila, tombada pelo Patrimônio Histórico da Bahia, o casario baixo, com eiras e beiras, foram pintadas com cores quentes, destacando-se as portas e janelas de madeira. As casas foram erguidas lado a lado, sem intervalos, por medida de segurança. Em caso de ataque dos piratas ou dos holandeses, eles se defendiam passando de uma casa a outra. Alvejavam os invasores de uma janela e depois corriam para outra janela. Os invasores se confundiam com os tiros disparados de diferentes lugares pelos arcabuzeiros.

Cajueiros, coqueiros e flores arborizam praças, ruas e jardins. Sobrou um pequeno cemitério bem no Centro, com meia quadra de sepulturas da Irmandade de São Benedito. Vivos e mortos se dão bem e nada atrapalha as festas da padroeira.

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Piranha com Alho Macho

Nícola, aquela austríaca filha de diplomatas que foi passar as férias em Arraial, aos 18 anos de idade, casou-se com um “peão” - conforme ela mesmo diz - e nunca mais saiu do seu paraíso, hoje toca com o consorte o restaurante Rosa dos Ventos. É dela a receita do Guisado de Piranha com Alho Macho. Alho macho é uma espécie de alho de um grão só, que ela mesma cultiva em sua horta. Pode ser substituído pelo alho comum. Segue a receita:

Para a piranha: 300g de piranha fresca; 5 dentes de alho macho; 1 cebola ralada; 150g de gengibre ralado; 3 tomates picadinhos; ½ limão; coentro picado; meia-colher de urucum; sal a gosto; duas colheres de azeite.

Para o pirão: 50g de peixe; 200g de caldo de peixe; 1 colher de pimentão picado; 5 colheres de azeite (dendê, no original); 1 tomate verde picado; 1 copo de leite de coco; 2 malaguetas verdes; 1/2 copo de salsinha; 1 copo de farinha de mandioca.

Preparo: Refogar numa panela todos os ingredientes no azeite. Em seguida, acrescentar a piranha inteira e o limão e abafar em fogo brando por 15 minutos. Na hora de servir, adicionar coentro fresco. Sirva com o pirão. Para fazer o pirão, refogue os ingredientes, acrescente o caldo de peixe e deixe ferver por uns dez minutos. Depois é só colocar a farinha em chuvisco e ir mexendo com colher de pau para não formar grumos.

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Espaços de badalação

Arraial é rica culturalmente. Exemplo é o ArraialCinefest, que vai se firmando como festival anual de cinema e vídeo de produtores independentes. Já o Festival Gastronômico está na sexta edição.

Mas até os anos 80, a Broadway ou Bróduei era o berço da badalação, com gente de todos os cantos e artesanato variado. Dizem os nativos que a lambada nasceu ali, no Largo da Igreja onde começa a Bróduei.

Há até uma esquina com a 5ª. Avenida, embora, em Nova York, elas não se cruzem. A boate, refúgio dos desvalidos do amor, chamava-se Studio 54, nome igual àquela da “Maçã”.

Hoje a Bróduei vive das boas lembranças, porque as atrações culturais estão concentradas no Caminho do Mar, estradas que levam às praias de Mucugê, Pitinga, Taípe e seguem até Trancoso.

Em 1994, o Beco das Cores era o lugar mais transado da cidade. Hoje, continua acolhedor, muito colorido e ainda mantém o charme das suas lojas de artesanato; bares que tocam da boa música popular ao autêntico blues de Chicago; restaurantes com culinária japonesa, italiana e portuguesa.

O turista, por exemplo, sentado no Sushi do Beco, de repente tem vontade de comer pizza da Pitanga. “No problem.” A garçonete vai ao vizinho e traz a redonda ao gosto freguês. As contas são consolidadas numa só. Imperdível o “Capeta” da Huhuhu, mistura de cachaça, guaraná em pó, mel e limão. Há variações light com chocolate em pó e leite condensado, sem faltar, é lógico, a cachaça e o guaraná em pó.

No final do Beco das Cores, um lugar incrível: o Cineteatro Fellini. Bolado pelo italiano Luigi Pasculli. Há um palco para performances, plateia com mesas e um balcão-mezanino. Toda a decoração é inspirada nos cenários dos filmes de Fellini. Servem-se vinhos e slow food. O ambiente é de refinada cultura.

A alguns passos do Beco está o Largo d’Ajuda. No restaurante do Xaxá, pode-se tomar um ótimo “xope” , comer um dourado na telha e ouvir Alda Katharine com o repertório dos mestres Caetano, Gil e companhia.

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