Nossa memória olfativa estoca cheiros interessantes quando nos lembramos da escola. Tem cheiro de infância, de lanche, do perfume da professora, de um punhado de coisas - mas, de horror e do imutável cheiro da morte, nem pensar. Bem diferente do que acontece hoje.
Ainda que as manchetes estampem diariamente fatos de extrema violência, a morte de um garotinho em plena sala de aula nos choca de forma impactante.
Wesley Rodrigues tinha 11 anos. Na manhã daquela sexta-feira, 16/7 - cumpriu a mesma rotina dos estudantes de sua idade. Porém, uma bala perdida durante uma troca de tiros entre criminosos e policiais o atingiu em pleno Centro Integrado de Educação Pública Rubens Gomes, no Rio de Janeiro.
Morreu a mesma morte que os condenados do submundo - com um tiro no peito. Só o crime foi diferente: se sentou numa sala de aula para escapar da bandidagem e conseguir ser um digno cidadão. Não deu. Ir à escola, naquele dia, foi fatal. Seu frágil corpo foi enterrado sob os olhares constrangidos da população.
Em Guerra e Paz, o famoso romance escrito por Tolstói, uma das mais notáveis obras da literatura universal pela riquesa e realismo de suas descrições psicológicas, o autor descreve uma teoria fatalista da História, onde todos os acontecimentos só obedessem a um determinismo irrelutável.
Cabe a pergunta: poderia o pequeno Wesley escolher o seu próprio destino? Não seria a escola um lugar para respeitar e ser respeitado? Um celeiro de conhecimento, ética e cidadania?
No mesmo dia, o presidente da CE (Comissão Europeia), José Manuel Durão Barroso, destacou o potencial do Brasil para receber investimentos estrangeiros, porém, advertiu que pode ser afetado pela imagem de insegurança. Acompanhado pelo governador do RJ, Sérgio Cabral, Barroso visitou o morro do Cantagalo. Em passeio pela comunidade, o presidente da CE viu diferentes projetos para reabilitar a área, como a futura sede da associação de moradores, blocos de apartamentos construídos pelo Governo para famílias pobres e o centro comunitário com várias atividades para crianças.
“A reabilitação social e cultural que está sendo realizada aqui é extraordinária”, Posso descrever a iniciativa como “um projeto para a paz”, afirmou o representante europeu.
Wesley Gilber Rodrigues não foi alcançado por nenhum projeto que o fizesse feliz. Era um aluno de uma escola pública brasileira. Foi baleado em plena sala de aula e levado ao hospital por seus professores. O socorro demorou mais de meia hora.
Se um dia o Brasil levar a sério a sua educação e segurança muita gente será beneficiado.É muito triste. Mas neste dia, quando chegar, o garoto Wesley Gilber Rodrigues, como muitos brasileirinhos, não será mais que um número de estatística. Uma saudade.
O autor, professor José Maria Cancelliero, é presidente do Centro do Professorado Paulista - CPP