Geral

‘Alguns têm mais propensão a matar’

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Por razões circunstanciais e predisposições culturais, temporais e de personalidade, algumas pessoas têm mais propensão a matar do que outras, segundo o psicólogo Sandro Carameshi. Ele ressalta, no entanto, que mesmo na natureza é muito pouco comum um parceiro matar o outro num contexto de relacionamento amoroso.

Ainda assim, aspectos biológicos interferem na tendência. “Homens, via de regra, são mais agressivos que as mulheres. Tem a ver com hormônios e com características de gênero. Pode acontecer da mulher matar, mas a proporção é muito menor”, explica o psicólogo, que é professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Bauru. Ao também destacar os aspectos culturais, ele lembra que em alguns países, ainda hoje, matar mulher é uma atitude aceitável.

Apenas em 2005, o adultério foi revogado do Código Penal Brasileiro como crime, cuja penalidade prevista era detenção de 15 dias e seis meses. Mas ainda nos dias atuais, o juiz tem a prerrogativa de diminuir a pena de um réu acusado de homicídio, caso o crime tenha sido cometido por motivo de relevante valor social ou moral ou ainda sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida à injusta provocação da vítima.

Caso Bruno

A ‘novela’ com maior audiência atualmente envolve o goleiro Bruno, do Flamengo, acusado de envolvimento no desaparecimento da ex-amante Eliza Samúdio. Emblemático, o caso suscita algumas avaliações. “Ao que parece, é um sujeito que veio de um ambiente em que a violência é algo relativamente comum. Ele achou como alternativa mais fácil eliminar empecilhos da vida dele. Tinha quem assassinasse e tinha, provavelmente, uma sensação de impunidade”, comenta Carameshi.

Na opinião dele, que ressalta o fato de acompanhar o caso apenas pela imprensa, no ambiente em que Bruno vivia, sumir com as pessoas deve ser algo relativamente comum. Já para a terapeuta Dirce Katayama, trata-se de um caso gritante de distúrbio de caráter. “Por essa razão, não podemos generalizar. Muitas pessoas que passam por situações semelhantes não chegam a esse ponto”, comenta, ao referir-se aos abandonos de mãe e pai sofridos por ele.

____________________

Fim do relacionamento pode provocar reações diferentes nos dois envolvidos

As separações geralmente são litigiosas porque o fim do relacionamento tem interpretações diferentes para o casal em questão. Para um é apenas o fim de um ciclo, para outro, uma perda irreparável, explica o biólogo, biomédico e antropólogo Luiz Roberto Relvas.

“Existem pessoas que sabem que podem conseguir algo melhor. Outras têm certeza que aquilo era o melhor que poderiam conseguir e não podem perder”, comenta. Diante de divergência dessa natureza, alguns tomam atitudes consideradas pelo antropólogo como grotescas.

Na opinião dele, a situação poderia ser menos corriqueira se as leis no Brasil fossem menos brandas. “Nesse caso, tenho certeza que pensariam duas vezes. As pessoas têm muito medo da morte, mas não percebem as pequenas mortes. Quando o padre fala até que a morte os separe está falando de qual morte? A do amor ou das pessoas?”, questiona.

Relvas acredita que muita gente se sujeite a relacionamentos desgastados também para não sair da própria zona de conforto. O preço, porém, é alto. “No início, a gente sempre acha que aquela pessoa é bonita, legal, gostosa, tem um certo status. Depois, não é tudo isso, mas o preço ficou muito alto. As pessoas passam a viver conforme a expectativa dos outros, o que nos impede de lidar com o nosso verdadeiro potencial. Alguns casais em crise acham melhor tapar os olhos e prolongar o ciclo que já se fechou”, avalia.

Dentro desse contexto, curiosamente, os jovens dão prioridade a amores sem compromisso, praticamente descartáveis. “Antigamente, ‘ficar’ era não ir a lugar nenhum. Hoje é a queima de uma etapa, um carinho sem compromisso”, finaliza.

Comentários

Comentários