Ser

Minha História: Doce capitalismo


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Aonde eu moro, a vida de um trabalhador vale menos que um torrão de açúcar. Sinto que em volta de mim tudo é doce, é um doce que dói, que me emperra e me melecaria até a alma caso eu a tivesse, é um doce desagradável que corta, destrói, polui. É um doce bandido que expulsa, explora e é capaz de exumar cadáveres para lhes sugar o que lhe resta.

Todos por ali morrem diabeticamente doce, as crianças crescem insuficientemente nutridas e funcionalmente analfabetas, desde cedo brincam de trabalhar, na ciranda de roda do lucro capitalista. A seleção natural ali é mais perversa, pois a natureza das coisas foram violadas os que sobrevivem como infante morrem.

Logo ali, pouco adiante, como adolescente desiludido e desvairado na volúpia ilusória das pedras que flutuam, inalando desilusões, os que não viram mercadoria e lucro viram fumaça. Há os que tombam nas sarjetas com o corpo trêmulo, onde se pode ver poucos dentes. Sujos entre os lábios cozidos pelo sol por onde escorre as últimas gotas de limbosa cachaça, mas tudo a sua volta continua doce e açucarado e esse doce dantesco e dolorido avança em busca de pele, de osso e sangue dos que sobrevivem e que insistem em trabalhar por se acharem fazer parte dessa ordem vigente.

Lázaro Carneiro

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