Bairros

O Líbano está aqui

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

O que o Líbano tem em comum com o Brasil? Se uma pergunta como esta fosse feita a um brasileiro com pouco conhecimento sobre o país árabe, certamente ele demoraria a encontrar similaridades entre as duas nações.

Porém, é possível afirmar que uma das maiores contribuições dos libaneses para com o Brasil está no ramo da gastronomia. Tanto os libaneses quanto os brasileiros são apaixonados pelos quibes, tabules, esfirras, entre outros pratos de origem árabe que são de dar água na boca.

A dificuldade de muitos brasileiros em reconhecer o Líbano como detentor da patente e criador de tais pratos pode estar no fato de que alguns elementos da gastronomia árabe estão tão impregnados na culinária brasileira que, por muitas vezes, se misturam aos pratos típicos do País e são considerados, por engano, propriedade verde-e-amarela.

É justamente este intercâmbio cultural e de sabores existente entre os mais diversos países que fez o chef libanês Mansour El Asmar, 40 anos, se apaixonar pela gastronomia e optar por dedicar sua vida aos prazeres da culinária.

Nascido no Monte Líbano, Mansour está no Brasil há 1 ano e meio e atualmente trabalha em um restaurante da cidade. Durante este tempo, o chef afirma que já sentiu as diferenças nos costumes alimentares e variações que os pratos típicos de seu país sofreram até chegar no Brasil.

“Percebi a primeira diferença logo que cheguei no Rio de Janeiro. Era bem cedo e eu fui à padaria e pedi um café da manhã. Quando vejo, me serviram um pão pequeno, com manteiga e café. Fiquei esperando o resto, afinal, no Líbano o café da manhã é bem mais reforçado. Achava impossível uma pessoa sobreviver comendo só aquilo de manhã”, lembra Mansour, sorrindo.

Alterações nas receitas originalmente árabes também são apontadas pelo chef. De acordo com ele, no Líbano os pratos são compostos por uma grande quantidade de legumes e bastante regados à azeite. A presença da carne nem sempre é obrigatória, já que, por ser um país localizado em região montanhosa, a temperatura nem sempre permite a pecuária.

Além disso, o chef destaca que algumas substituições nos ingredientes das receitas originais acarretam uma grande perda de qualidade e sabor. De acordo com ele, no Brasil é usado uma quantidade muito grande de trigo, pepino e alface. Já no Líbano a quantidade de trigo é menor, o pepino não participa das receitas e a salsa substitui o alface.

“Lá a gente usa mais o carneiro, por ser o animal mais resistente ao frio. Também por conta do inverno rigoroso, os libaneses costumam trabalhar como formigas. No verão, colhemos e secamos os alimentos, para depois estocarmos e consumirmos no período de frio”, detalha Mansour.

Outra particularidade é que, no Líbano, pratos como quibe e tabule são consumidos como principais, já no Brasil, fazem a função de acompanhar o tradicional arroz e feijão.

“Aposto que os libaneses mais tradicionais ficariam inconformados com a forma com que seus pratos são consumidos aqui no Brasil. No Líbano, muitas pessoas se recusam a comer o quibe, por exemplo, se ele não for amassado em uma espécie de pilão, bem ao modo antigo”, analisa Mansour, que indica o arrak, uma bebida composta de uva, erva-doce e álcool, para acompanhar as iguarias.

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