Todos os dias, milhares de pessoas deixam suas casas e percorrem, apressadamente, as ruas de Bauru. Para chegar cada qual ao seu ponto final, cruzam avenidas, lotam ônibus, enfrentam engarrafamentos. Passam, sem perceber, por um corredor polonês que esconde, atrás de muros altos e protegidos por cercas elétricas, um mundo encantador, subterrâneo e não oficial.
Ao completar 114 anos, Bauru tem em seu currículo características de uma cidade cosmopolita. Isto porque a cidade abriga nove universidades, mais de uma centena de restaurantes e opções de lazer, e acolhe, diariamente, pessoas de diversas nacionalidades.
A soma destes e de outros fatores, tais como o entroncamento ferroviário que deu origem à cidade e o posicionamento geográfico do município, no centro do Estado de São Paulo, resultaram na diversidade de idiomas falados.
De acordo com levantamento realizado pelo pesquisador João Batista de Mattos Winck Filho, doutor em comunicação e semiótica pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, a cidade fala, ao todo, 17 línguas, entre idiomas e dialetos.
A constatação foi feita a partir de uma pesquisa realizada pela Organização Não Governamental (ONG) Bauru pela Diversidade, que buscou quantificar e qualificar a gastronomia da cidade.
“A princípio, nossa intenção era estudar a variedade gastronômica de Bauru. Conforme começamos a pesquisar, descobrimos uma cidade poliglota, que fala 17 línguas. Ficamos surpresos, já que o número é expressivo”, analisa João.
De acordo com ele, além dos idiomas tradicionais, como o inglês, o espanhol, o francês e o italiano, é possível encontrar na cidade quem saiba se comunicar em pajubá e iorubá, dialetos africanos, ou pessoas que falem grego, latim, mandarim ou esperanto.
Mesmo que estes grupos não sejam formados por um número tão expressivo assim de pessoas, alguns não chegam a dez, João aponta que são de grande relevância para a cidade, pois, uma vez aqui instalados, passam com naturalidade seus conhecimentos às outras pessoas.
“Com o tempo, os grupos que falam os idiomas menos conhecidos ou menos comerciais tendem a aumentar e a se tornar bastante significativo. O conhecimento tende a ser passado de geração em geração”, explica o professor.
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Alemão
Quando o assunto é estudar, a grande maioria das pessoas prefere ir pelo caminho mais fácil. Pegam atalhos, inventam estratégias e, de preferência, fazem somente o básico. André Ricardo Marron, 24 anos, é uma exceção. Formado em relações internacionais, André percebeu que precisava falar outro idioma logo que entrou na faculdade.
Em seu leque de alternativas estavam línguas como o inglês, espanhol, italiano e francês, entre outras tantas. Porém, sem pensar duas vezes, André optou por aprender alemão.
“Para mim, falar, escrever e entender bem o idioma inglês é pré-requisito, e não diferencial. Quanto aos outros, nenhum me atraía tanto quanto o alemão. Quando me decidi pela língua germânica, sabia que seria difícil, mas acredito que foi isso que me motivou. Foi um desafio que venci”, avalia André.
Depois de três anos de estudo, André partiu para a Alemanha, onde ficou por um ano na cidade de Mannheim. Ao voltar, para não perder contato com a língua, decidiu conciliar o trabalho com as aulas que passou a dar em escolas de idiomas.
André aponta que, atualmente, o curso do idioma é bastante procurado na cidade, especialmente por jovens e estudantes do curso de engenharia, já que boa parte das empresas que atuam no segmento são de origem alemã.
“Acho que o desafio é um dos ingredientes do alemão que despertam o interesse das pessoas. Elas olham aquelas palavras, recheadas de consoantes, e pensam que jamais vão conseguir entender o que elas significam. Estudando, percebem que não é tão difícil assim. É uma questão de prática. Vale a pena tentar”, incentiva André.
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‘Usucapião’
Pare para pensar: quantas palavras que compõem seu vocabulário são, na realidade, de origem estrangeira? Certamente, muitas pessoas identificarão poucas, porém, mesmo sem se dar conta, diariamente falamos um número incontável delas. Em Bauru, esta apropriação de vocabulário tende a ser ainda maior.
De acordo com Antônio Walter Ribeiro de Barros Junior, doutor em letras pela Universidade de São Paulo e professor da Universidade do Sagrado Coração (USC), a localização geográfica do município foi o principal contribuinte para que Bauru se tornasse uma cidade poliglota.
“No passado, Bauru recebeu muitos imigrantes de diversas partes do mundo. Esta mistura fez com que incorporássemos em nosso vocabulário muitas palavras estrangeiras e, mesmo sem perceber, as classificássemos como sendo nossas”, explica Walter.
Na opinião do professor, tal diversidade foi bem aproveitada pelos habitantes do município, que se beneficiou da situação para se enriquecer culturalmente. “Penso que esta mescla de idiomas é algo muito positivo. A ideia sempre deve ser aproveitar as diferenças e criar uma unidade da diversidade”, destaca.