Em audiência pública de Direitos Humanos realizada recentemente a respeito do cemitério clandestino de La Macarena (Colômbia), informou-se que foram encontrados pelo menos 449 corpos de assassinados entre 2004 e 2010; os índios dizem que há cerca de 2 mil. São centenas de fossas que se localizam, como sempre foi denunciado, em local anexo à base militar estadunidense onde funcionam as brigadas móveis da FUDRA (Fuerza de Despliegue Rápido).
A audiência, convocada pela senadora Gloria Inés Ramírez, contou também com a presença das também senadoras Clara López e Piedad Córdoba, além de nove parlamentares de diversas organizações européias. Jhonny Hurtado, o defensor de Direitos Humanos que guiou a delegação britânica em sua visita ao cemitério em dezembro de 2009, fue assassinado em sua fazenda em 15 de marzo de 2010, denunciou a TeleSURtv no último dia 27 de julho.
Trata-se de algo análogo ao que ocorre com relação ao que ficou sendo conhecido como “falsos positivos”. Militares recebem recompensa quando matam alguma pessoa supostamente pertencente às FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Assassina-se qualquer civil, vestem com uniforme semelhante aos das FARC, coloca-se um fuzil ao lado e se fotografa. Assim, jovens tem desaparecido repentinamente: estima-se que cerca de 2 mil cadáveres foram enterrados nas fossas do Cemitério de La Macarena. São ameaçados os familiares que tentam denunciar ou buscar os corpos.
Atílio Borón, cientista político e articulista do jornal semanal Brasil de Fato, informa que, na Argentina, durante anos esta mensagem circulou pelo país: “Não esquecemos, não perdoamos, não nos reconciliamos. Justiça e castigo aos genocidas e seus cúmplices.”
Cansados da impunidade, em 1995 argentinos fundaram a organização “Filhos pela Identidade e Justiça, contra o Esquecimento e o Silêncio”, HIJOS na sigla em espanhol, e organizaram campanhas que denominaram escrache: após descobrir a residência de assassinos da ditadura (17976-1983), divulgam entre os vizinhos para que deixem de cumprimentá-los e façam manifestações diante de suas casas. Não tem sido em vão: Julgamentos pela Verdade ocorreram entre 1998 e 2003. Após uma mãe recorrer à Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA para saber sobre o paradeiro de seu filho, os repressores da ditadura argentina foram obrigados a comparecer como testemunhas. Agora está em julgamento o ex-presidente Jorge Rafael Videla (1976-1981) e já foi condenado a prisão perpétua o general Luciano Benjamin Menéndez que fuzilou 31 presos políticos sem julgamento.
Lenços brancos na cabeça, as Mães da Praça de Maio semanalmente circulavam em torno da Praça do mesmo nome, com cartazes e faixas, exigindo justiça. Não foi só por dias ou meses, mas por décadas, sem faltar nenhuma semana. Não esmoreceram e foram, em grande parte, responsáveis pela derrubada da ditadura e pelo julgamento de muitos dos assassinos. Por meio da universidade, “Mães da Praça de Maio”, que fundaram e coordenam até hoje, mantêm viva nos jovens a chama da busca da justiça. De quem têm medo os que, no Brasil, impediram que constasse, no Plano Nacional de Direitos Humanos elaborado pelas conferências municipais, estaduais, distrital e nacional de Direitos Humanos, o direito à Verdade sobre os assassinatos praticados durante a ditadura instalada em 1964?
A autora, Iolanda Toshie Ide, é professora aposentada da Unesp