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Crianças querem pais longe das redes

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 6 min

Na vida real, os pais podem até ser os melhores amigos, mas quando se trata de relacionamento no ciberespaço das redes sociais, os filhos preferem mantê-los à distância. É o que indica pesquisa recente realizada pela eMarketer, uma das principais companhias mundiais especializadas em análise de informações.

O estudo mostra que quanto mais nova uma criança, maior a chance de ela odiar a ideia de ser amiga do pai ou da mãe no mundo virtual. Entretanto, quando chegam ao colegial, eles consideram que ser amigo do pai ou da mãe não é tão ruim. Pesquisa da Kaplan Test Prep and Admissions informa que 56% dos estudantes do colegial deram aos seus pais o acesso total a seus perfis.

No entanto, a mesma pesquisa mostrou um outro dado preocupante. A maioria dos pais não participa de redes sociais, o que dificulta o acompanhamento do que os filhos fazem e com quem eles se comunicam pela Internet.

Especialistas em segurança na web recomendam que os pais façam parte da rede de relacionamento dos filhos na Internet por duas questões principais. Eles sustentam que a presença dos pais intimida predadores que podem seguir a criança e, com a presença online dos pais, as crianças pensam duas vezes antes de postar algo que não deveriam, como, por exemplo, números de telefone, endereço residencial, entre outras informações pessoais.

Um estudo realizado pela F-Secure (empresa de software de segurança) no início deste ano revelou que 73% dos usuários do Facebook não adicionaram o chefe, ou seja, são seletivos na escolha do seu grupo de amigos virtuais. Agora, constataram que o mesmo acontece com as crianças, que também escolhem com quem se relacionar na rede social.

Anne Rego Nunes, 11 anos, é frequentadora assídua do Orkut. A pedido da mãe, ela incluiu-a em sua lista de amigos. Apesar de ter concordado com a inclusão e achar que é importante o acompanhamento da mãe, Anne vê sua privacidade ameaçada. Ela diz não se sentir muito à vontade sabendo que a mãe a está vigiando, mas aceita a supervisão por acreditar que está mais protegida.

Giulia Bianchini, também de 11 anos e amiga de Anne, adicionou o pai e a mãe à sua lista de amigos virtuais. Ela diz ter feito isso de livre e espontânea vontade porque queria ter uma lista de amigos bem grande. Uma lista extensa é sinal de prestígio e a garotada adora isso.

Para a mãe de Giulia, Alessandra Bianchini, estar na lista de amigos da filha é uma forma de acompanhar de perto com quem ela está se relacionando na Internet, o tipo de assunto que rola, quais são as comunidades que participa.

“Algumas pessoas acham isso uma invasão. Eu classifico essa atitude como preocupação. É uma forma de preservar e orientar meus filhos. E sempre antes de adicionar alguém, eles vêm me perguntar se conheço ou se eles podem adicionar”, conta.

Giulia diz já ter visto amigas adicionarem pessoas que não conheciam à lista de amigos. Seguindo as orientações dos pais, ela afirma que só inclui em sua lista quem ela conhece.

Segundo o pai, Giovani Bianchini, a preocupação maior é com as pessoas mal intencionadas. “A Internet tem sido um instrumento muito usado para maldades de todo tipo. Então, os pais têm de se cercar de todos os cuidados”, defende.

Para Giovani, a atenção é sempre maior com as filhas. Ele também tem um menino, Pietro, de 9 anos, mas o interesse do garoto é mais com os joguinhos do que com as redes sociais, o contrário da irmã.

Crianças ignoram as normas de segurança

Um terço dos internautas entre 8 e 11 anos está cadastrado em pelo menos uma rede social (Orkut, Facebook, Myspace, Twitter, etc) e 40% desse público deixam seus dados pessoais visíveis na rede, como número de telefone e endereço de Internet, apesar das constantes advertências sobre o perigo que isso representa. Os dados fazem parte de um estudo realizado pela organização britânica Ofcom, publicado em abril de 2008.

Para Marisa Eugênia Meira, professora de psicologia escolar da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, do ponto de vista técnico, os pequenos lidam muito bem com esse mundo novo que a Internet representa, mas não dá para dizer o mesmo quando o assunto é segurança.

E quando são vítimas de alguma violência, como o ciberbullying, ou armadilha, como identidade roubada, não têm o costume de comunicar os pais. Preferem curtir sozinhos o desgaste emocional que isso lhes provoca. “Há um esforço das crianças para manter a vida virtual longe da vida real. Por isso, evitam contar aos pais”, relata.

Segundo ela, por um bom tempo, a TV foi chamada de babá eletrônica. Atualmente, esse papel é dividido com o computador. Apesar da grande quantidade de informações a que a criança tem acesso hoje com a Internet, a formação humana vai muito além do mundo virtual. “Valores como ética, capacidade de análise crítica, só se aprende em relacionamentos aprofundados”, diz Marisa.

Na opinião dela, as redes sociais vêm ocupando, cada vez mais, um espaço maior no desenvolvimento pessoal, mas falta um elemento importante para que esse desenvolvimento seja completo: o contato pessoal.

De acordo com a professora, as pessoas que precisam de uma máquina para se relacionar com as outras é sinal de que algo está errado. “Tem jovem que não sai de casa, só para ficar na Internet”, lembra ela.

Sem repressão

A psicóloga Ana Cláudia Bortolozi Maia tem duas filhas. Uma delas, Bruna, está com 12 anos, e participa ativamente do mundo virtual. A mãe e o pai, Ari Maia, não têm perfis nas redes sociais, mas sempre acompanham os passos da filha na Internet.

“Não somos adeptos das redes sociais porque achamos que isso expõe demais as pessoas. Transforma o pessoal em algo público. Abre sua vida para quem não precisa saber”, argumenta a mãe.

No entanto, na escola e no círculo de amigos de Bruna, todo mundo faz parte das redes sociais, principalmente do Orkut. Aí fica difícil argumentar contra. A saída, segundo Ana Cláudia, é orientar corretamente a filha para que ela utilize o computador com o mínimo de riscos.

“Não quero ser repressiva. Se eu proibir, vai despertar a curiosidade. Ela pode entrar em tudo, mas precisa saber dos riscos”, diz. “Minha ideia é fazer com que ela tenha autonomia nas decisões e assuma suas escolhas”, afirma.

Nem por isso, ela descuida. Ana Cláudia está sempre de olho. “Tenho medo de pedofilia, da violência, de coisas que eles (filhos) não estão preparados para enfrentar”, justifica.

Ao revelar sua preocupação com a violência no mundo virtual, Ana Cláudia sabe bem do que está falando. De acordo com Sean Sullivan, especialista residente em segurança de mídia social da F-Secure (empresa de software), o bullying (atitudes agressivas e negativas, executadas repetidamente por um ou mais indivíduos) pela Internet é um problema mais comum do que a perseguição por predadores sexuais.

Outra preocupação da psicóloga são as comunidades que a filha participa, mais especificamente os valores propagados por elas. “Esse negócio de eu odeio isso, odeio aquilo, me preocupa”, revela.

Por enquanto, a preocupação de Ana Cláudia é só com Bruna. A outra filha, Beatriz, tem apenas 5 anos e só quer saber de brincar com os joguinhos no computador.

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