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Entrevista da Semana: César Franceschini Savi

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

“Para dizer o que eu sinto por Bauru, pegue a palavra fanático e coloque em letras maiúsculas e em negrito, para destacar bem”, diz o mais que bauruense César Franceschini Savi.

Aos 72 anos, ele é um apaixonado pela leitura e informação. Tal vocação é responsável por suas quatro décadas de dedicação ao jornalismo. Foi correspondente do jornal “O Estado de São Paulo”, revista Flap de aviação, Rádio Globo e Revista Tênis, além de trabalhar por cerca de 23 anos no Jornal da Cidade nas colunas Tênis e Destaques. “Sempre estive atendo a tudo e a todos, vivo procurando coisas que rendam matérias interessantes para sugerir como pautas”, diz.

Com uma memória invejável, ele conta fatos marcantes de sua vida, como os eventos culturais que ajudou a promover na época da Tilibra com a presença de nomes de peso como Chico Anísio e Lígia Fagundes Telles. E outros que não marcaram pela alegria, mas pela dor, como o acidente de avião que matou seus sobrinhos Gisele e Guilherme Savi.

Amante dos animais, ele relata como, sem querer, se tornou um “protetor” dos bichos de estimação. Leia estes e outros assuntos na entrevista que César Savi concedeu ao Jornal da Cidade:

Jorna da Cidade - Como têm sido os seus dias na cidade que tanto ama?

César Franceschini Savi – Vou dizer que sou um aposentado entre aspas. Desenvolvo uma série de atividades e meu dia é até excessivamente preenchido com as coisas que tenho para fazer, ver e providenciar e isso me agrada. Como idoso, eu costumo acordar cedo e isso é bom porque já vou me inteirando com a leitura de jornais e livros. Vou para o computador e fico por dentro de tudo o que está acontecendo por aqui e pelo mundo... Então o dia passa rapidamente, a semana passa rapidamente, o mês passa rapidamente, o ano passa rapidamente...

JC - A vida também passa no mesmo ritmo. Acha que não deu tempo de realizar tudo o que gostaria?

César Savi - Estou sempre de bem com a vida e satisfeito. Quando a idade avança e as lembranças de um passado já um pouco distante começam a aflorar, você lembra de coisas que te marcaram.

JC - Uma lembrança boa.

César Savi – Tenho muitas. Como a homenagem que recebi quando completei 50 anos. Sempre fui acanhado para comemorações e disse que podíamos apenas sair para comer alguma coisinha. Mas um grupo de amigos e familiares preparou uma festa e foi um momento honroso que eu não esperava. Foi uma confraternização extraordinária. Outra boa passagem foi a inauguração da Rua Henrique Savi, em homenagem a meu avô.

JC - Um momento triste.

César Savi – Quando o Brasil perdeu a Copa do Mundo em 1950. Até hoje não digeri. Eu estava no campo do BAC e foi um trauma esportivo que ficou entalado na minha garganta. Outra foi quando transmiti via rádio um acidente de um avião da TAM que caiu em uma plantação de eucaliptos em Agudos e matou muita gente. Porém, o episódio mais triste de todos foi o acidente com um avião da TAM, aqui em Bauru, que provocou a morte de minha sobrinha Gisele Savi e seu filho Guilherme Savi. O avião caiu sobre o carro e foi algo tremendamente triste para todos. Uma situação muito difícil de ser superada.

JC - Como começou sua carreira profissional?

César Savi – Comecei como comerciário na Tilibra, em 1952. Fui controlador de estoque, trabalhei no balcão e cheguei a ser premiado com uma caneta Parker 51, uma raridade na época, por ter vendido mais que os outros funcionários. Depois, fui trabalhar como bancário no antigo Banco Comercial, onde atendia o pessoal da Tilibra e fui convidado a trabalhar novamente na empresa deles. Nessa fase, cheguei a ser gerente na Tilibra. Depois dos meus 12 ou 13 anos lá, fui convidado para assumir a gerência da Poupança Econômica. Nessa época encontrei amigos incríveis. Foi um período muito bom, assim como na Tilibra.

JC - Tem boas histórias dessa época?

César Savi – Na época da Tilibra, com a ajuda da professora Marisa Bianconcini, fazíamos contatos em São Paulo e trouxemos muitos famosos como Chico Anísio, Paula Saldanha, Plínio Marcos e Lígia Fagundes Telles para eventos e dar autógrafos na Tilibra. Foram muitas festas culturais de qualidade. Vendíamos tantos livros que os autores ficavam espantados. As manhãs de autógrafos ficavam congestionadas de tanta gente que comparecia. Pena que hoje essa sequência é bem mais modesta. Na época da Poupança Econômica organizamos uma mostra de artesãos e pintores para chamar a atenção das pessoas. Compramos um livro onde o nome do visitante era colocado para sorteios de quadros e as pessoas compareciam. Os profissionais das agências econômicas das cidades vizinhas vinham e perguntavam como fazer. Também realizamos o Concurso Imprensa. Muitos jornalistas e fotógrafos da cidade receberam prêmios.

JC - A arte é uma paixão?

César Savi – Sempre foi. Eu como observador e crítico, no bom sentido, tenho cobrado de livrarias e de supermercados que vendem livros, que façam um cartaz escrito “autores bauruenses” para destacar esses profissionais. Uma coisa tão simples de fazer para divulgar nossa cultura. Costumo dizer que tenho a língua azul e não preta, porque gosto de criticar para a coisa andar, melhorar.

JC - Quando o jornalismo ganhou espaço em sua vida?

César Savi – Tenho mais de 40 anos de imprensa. Eu era caixa do Banco de Crédito de Minas Gerais e tinha um amigo que era representante em Bauru do jornal “O Estado de São Paulo”. Ele me indicou para ser correspondente deles. Eu disse que ele estava louco. Como iria fazer? Ele foi bem didático e me ensinou os primeiros passos de um texto jornalístico. É claro que meus textos sempre eram editados e aquilo que eu mandava era reformulado. Fui lendo e aprendendo como deveria ser e, mediante prática e teoria, fui melhorando. Fiquei no cargo por 10 anos. Depois fui correspondente na Flap, uma revista de aviação. Foi uma época muito confortável porque fiz boas viagens. Tudo isso adicionado a Rádio Globo e Revista Tênis, onde também fui correspondente. Também tive um período glorioso no Jornal da Cidade. Trabalhei por cerca de 23 anos na Coluna Destaques com o Rufino, além de redigir a coluna Tênis. Muitas vezes uma nota da Coluna dava origem à matérias grandes depois.

JC - Acredita que já nasceu com o dom para o jornalismo?

César Savi – Sempre estive atendo a tudo e a todos, vivo procurando coisas que rendam matérias interessantes e sugiro como pautas. Outra alegria com o jornalismo foi ver meu nome em matérias que eu enviava para O Estadão de São Paulo. Foi um período muito ativo. Uma curiosidade é que não consigo sair de casa sem caneta. Celular não tenho, não gosto e não faz falta, mas caneta não pode faltar.

JC - É um bom jogador de tênis?

César Savi – É um esporte que pratico até hoje, aliás, sou o segundo mais velho do Bauru Tênis Clube. Já joguei muito futebol de campo e de salão. Inclusive tenho uma passagem interessante. O gerente do banco onde trabalhei morava em uma casa do Pelé que certa vez veio a Bauru porque o Santos iria jogar contra o Noroeste. Ele se dispôs a bater uma bola com a gente no campo do BAC. Dentro do Crédito Real há um comercial com Pelé onde eu apareço como caixa do banco. Foi muito bacana. Tínhamos um time bom de bola no banco.

JC - Você fez Faculdade de Direito, certo?

César Savi –Fiz o antigo curso normal e Faculdade de Direito. Fiz essa faculdade porque era o que havia disponível na época. Mas as profissões que tive me chamaram a atenção pelo dinamismo com que acontecem.

JC - Considera-se um bauruense fanático?

César Savi – Esse fanático precisa ser escrito em negrito e em letras maiúsculas. Sou super bauruense. Morro de inveja quando alguém diz que foi em tal cidade e ela não tem mato e buracos na rua. Mas eu me entusiasmo com Bauru porque vejo o quanto essa cidade cresceu e ainda está crescendo. Quero voar de planador e fotografá-la para fazer comparações. Esse vínculo com Bauru me enche de orgulho por vários motivos. Um deles é pelo fato de meu pai ter jogado no BAC e ter sido um de seus fundadores.

JC - Como começou seu movimento de proteção aos animais?

César Savi – Na verdade, um amigo teve seu cachorro perdido e me pediu para divulgar o ocorrido para minha lista de e-mails. Depois disso, comecei a receber um monte de mensagens sobre cachorros e gatos perdidos e para doação, além de socorro financeiro para animais. Eu dou conselhos para as pessoas com animais perdidos... Tento colaborar e ajudar porque a relação de um ser humano com os animais de estimação é algo muito bonito.

JC - Como um bauruense fanático, algo te entristece?

César Savi –Acho que a cidade poderia ser bem melhor do que é. Cada um deve fazer a sua parte. Como disse John Kennedy, não é o que a prefeitura pode fazer por você, mas sim o que você pode fazer por ela. E eu acrescento: o que você pode fazer por sua cidade, mas é claro que o poder público deve fazer a sua parte. Poxa, se cada um cuidar de seu lixo e entulho, a cidade fica mais bonita, limpa. É preciso conscientização, bom censo e colaboração. Outro problema que me aborrece muito é a poluição sonora da cidade. Apesar dos problemas, sou um apaixonado por Bauru.

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