A oportuna reportagem que o Jornal da Cidade divulgou ontem sobre o problema das árvores urbanas, com certeza provocará inúmeras manifestações confirmando o descaso de alguns cidadãos, mas também de muitos que procuram colaborar e encontram barreiras. São inúmeros os casos dos que querem substituir árvores que causam problemas por outras melhores e não são autorizados, como daqueles que fazem podas corretas e são multados por interpretação equivocada da fiscalização. São em número maior os que querem ajudar a cidade a ficar mais amena e bonita do que os egoístas e inimigos da natureza.
Bauru nunca teve um plano de arborização e paisagismo. Ao longo do tempo tem passado por ciclos de predominância no plantio de algumas espécies, segundo os caprichos da administração. O primeiro ciclo foi o do fícus ou fícus benjamin. A Praça Rui Barbosa era contornada por fícus muito bem podados. A Avenida Rodrigues Alves, do início até o quarteirão 11 tinha fícus no canteiro central, com bancos para descanso à sombra. No início da década de 1960 os fícus precisaram ser erradicados devido a uma praga de mosquitinhos que irritavam os olhos, popularizados como “lacerdinhas”. O segundo ciclo foi das tipuanas, da parte central até os altos da cidade. Eram podadas todos os anos e acabaram formando enormes nós onde os galhos eram serrados. Eram caducas, soltando muitas folhas e também eram presas fáceis de cupins. Ainda há exemplares, como na Duque de Caxias. Teve um outro ciclo, mais do lado sudoeste, acima do Hospital de Base, do chapéu de sol, árvore de grande porte e grandes folhas, que dão trabalho à limpeza de ruas e calçadas. Ainda predomina o ciclo da sibipiruna, terrível para os telhados com calhas e para os automóveis, com as suas folhinhas que parecem confetes. Por pouco não tivemos o ciclo das falsas seringueiras, plantadas principalmente entre a Rodrigues Alves e Duque de Caxias, árvores que ficam enormes, com raízes de até cinqüenta metros, destruidoras de calçadas e encanamentos. Felizmente foram erradicadas a tempo. Hoje parece ter começado o ciclo do oiti, já bem espalhado em boa parte da cidade.
Entre as espécies dominantes aparecem outras esparsas como canela, quaresmeira, espatódea, ipê, chorão etc. Não se sabe de um plano de arborização levando em conta as espécies que seriam mais adequadas às características climáticas e urbanas da cidade, nem agora que o prefeito é ambientalista desde criança. Para plantar não há dificuldade, qualquer que seja a espécie, se de grande ou pequeno porte, se do lado onde há as linhas de transmissão elétrica e de telefonia ou do lado livre. As dificuldades aparecem quando há necessidade de cortar ou podar. Até nas árvores secas ou ameaçando cair as pessoas não podem mexer para não serem multadas. Quanto às podas, só podem ser feitas por podadores cadastrados, mesmo que estes não respeitem as épocas propícias, primavera e outono, e nem os pontos certos de corte. Mas a CPFL pode vir e cortar de qualquer jeito para livrar os seus fios, formando figuras bizarras de copas em forma de forquilha ou pela metade, avançando sobre a rua.
Torçamos para que a bola levantada pelo JC venha resultar na elaboração de um plano de arborização e paisagismo, que embeleze a cidade e alivie moradores e visitantes do calor que predomina na maior parte do ano. Esse foi um dos sonhos de 1989, quando a antiga Divisão de Limpeza pública foi transformada em Secretaria do Meio Ambiente.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras