Articulistas

Educação e subserviência

Renato Dias Baptista
| Tempo de leitura: 3 min

Há muitos exemplos relacionados ao êxito educacional em todo o mundo. Eles podem ser encontrados nas revistas cientificas, nos jornais, nas empresas, nos laboratórios, nas universidades, entre tantos outros espaços de grande qualidade que estão localizados, em maior freqüência, nos países europeus, asiáticos ou nos Estados Unidos da América. Mas é preciso cautela quando a proposta externa impulsiona uma subserviência arraigada na América Latina. Claro, esses locais citados anteriormente recebem enormes incentivos educacionais há muito tempo, e todos sabemos que incentivar a educação num país significa desenvolver cidadãos mais críticos que, por sua vez, ‘poderiam’ influenciar a qualidade das mídias, gerar inovação nas empresas ou realizar pesquisas de ponta nas universidades. Contudo, o servilismo encontrado nos países latino-americanos merece atenção, pois entremeia a cultura dos diferentes povos do continente e gera uma resistência à mudança que não será modificada em curto prazo, mesmo que as promessas políticas se efetivem. Entre muitos aspectos que poderiam ser analisados, veja-se o caso da literatura acadêmica nas áreas de administração ou comunicação, por exemplo, que muitas vezes citam – em excesso - autores estrangeiros em suas referências – entenda-se, como estrangeiros, os oriundos dos locais citados anteriormente – e impulsionam uma dependência convencional nos estudantes.

Quando alguém escreve uma Tese ou Dissertação, uma conduta facilmente encontrada é a de exigir que sejam mencionados americanos, franceses, alemães ou outros conforme o campo de estudo. Muitos escutam durante uma defesa de Tese: “Você não citou o Bakhtin? Então sua pesquisa não está completa.” (e Bakhtin aqui é apenas para ilustrar). Porém, o que está completo no pensamento humano? A bajulação intelectual seria a integralização? Isso não acontece – também – por culpa de um predominante raciocínio cartesiano nas universidades? Essas, a propósito, não reproduzem apenas o status quo ‘científico’? Enquanto um país recusar as novas idéias e embotar a criatividade em todos os níveis educacionais, ele jamais eliminará em sua população a dependência ou a disposição em pressupor que o estrangeiro seja sempre melhor.

Muito bem, devemos investir em educação – é o atual mote político - mas seria muito simplista dizer que abrir mais cursos ou universidades bastaria para fazermos parte de um grupo de países seletos em relação ao conhecimento utilizado e apregoado. Da mesma maneira não basta o docente ter reconhecimento salarial, visto que isso, em termos de macro-estratégicas, não proporciona uma alavancagem estrutural na educação. Sim! profissionais bem remunerados produzem mais, além disso os salários adequados podem revelar o talento e a justiça da administração pública, entretanto, para aqueles docentes que estão acostumados com a simples reprodução do conhecimento, não-crítico e não-criativo, o bom salário não estimulará a mudança educacional, talvez haja um aumento da mera acriticidade. Em relação aos que foram mal selecionados para essa carreira, pode ser mais grave, já que não há um sistema de recompensas capaz estimulá-los.

Em que direção está a solução? Se qual for ela, demandará um longo prazo. Entre as inúmeras ações, é necessário reestruturar os processos de seleção de docentes, bem como lhes agregarem ética, redesenhar os conteúdos ministrados, capacitar intensamente os professores, repensar a educação em todos os níveis, ampliar o incentivo às pesquisas e aos autores nacionais – sem ufanismo ou reducionismo intelectual - proporcionar a integração do conhecimento acadêmico com a sociedade que, a propósito, não pode ser confundida com a filantropia ou a atitude de aprender ‘na’ população. Enfim, aquilo que está por vir é dependente da compreensão profunda do momento em que nos encontramos e das ações efetivas que iniciarmos.

O autor, Renato Dias Baptista, é doutor em comunicação e semiótica pela PUC-SP, docente da Universidade Estadual de Londrina e da Universidade Paulista - e-mail: rdbapt@gmail.com - blog: http://ideiaswireless.blogspot.com

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