Lamentavelmente, vez que outra somos obrigados a ler ou assistir matérias falando da saúde no departamento de urgência e emergência como se fosse algo lastimável e que essa lástima se devesse à falta de postura da equipe que o compõe. Num destes domingos saiu neste jornal uma matéria de quase meia página falando de um caso em que uma mulher infartada foi salva porque a equipe e o departamento fizeram as coisas como deveria ser sempre, inclusive o Samu. Infelizmente as centenas de casos que a intervenção dos mesmos foi determinante para resolver o problema ficam no ostracismo “porque não fizemos mais que a obrigação”, e muitas vezes fizemos mais, sim. Nossa equipe está desfalcada e o departamento carece de mais equipamentos e medicamentos para que possa dar tudo o que deveria ser possível. Mesmo com muitos médicos fazendo horas extras, que financeiramente não são compensadoras, ainda assim colegas ficam sozinhos no PS Bela vista e em número reduzido no PS Central, como ocorreu no domingo 08-08-2010.
Ainda assim somos alvo de agressões verbais por parte dos pacientes como se fôssemos culpados da falta de profissionais e, mesmo trabalhando desfalcados, parece que somos vagabundos. Com o Samu ocorre a mesma coisa, muitas vezes faltam profissionais e sempre faltam viaturas, pois há um direcionamento equivocado das viaturas, como também acontecia antes do Samu com as viaturas municipais. A maioria dos casos transportados pelas viaturas não justificam o uso das mesmas. O Samu é usado como um apêndice do serviço social, resolvendo mais problemas de carência financeira ou comodidade de muitos que têm carro, mas preferem esperar uma a duas horas para serem transportados pelo Samu. Um dos motivos é dado pelos próprios funcionários do Samu que qualquer bêbado que transportem, crise nervosa e outras consultas por motivos irrelevantes, levam sempre para a sala de urgência e os mesmos são passados à frente de todos que já estão nas unidades do PS. Por outro lado, sempre que um bêbado está deitado na calçada, algum morador dali chama o Samu dizendo que tem alguém “passando mal” e pintam a história de tal modo que são obrigados a ir buscá-lo.
Esquecem-se que o Samu pode estar deixando de ir buscar um parente seu, um amigo, um colega de trabalho e, quando isso acontece, e acontece todos os dias várias vezes, são os primeiros a criticar. Eu sempre disse que se Bauru tivesse um Bebódromo, metade das saídas do Samu seriam para lá. Enquanto não houver a conscientização da população sobre o que é urgência e emergência e enquanto a rede básica de saúde não absorver 90% das consultas rotineiras que acabam no PS, sempre haverá esse impasse.
Nós, médicos, fomos formados para salvar vidas e não para ver o contrário, mas somos tratados como se fizéssemos o contrário. Espero que com a abertura das novas unidades de saúde do Ipiranga, Mary Dota e Bela Vista haja uma melhora significativa da saúde pública em Bauru. Contudo, é importante que fique bem claro que essa melhora dependerá do poder público, das equipes médica e paramédica, bem como dos próprios usuários, pois há um fluxo de atendimentos injustificados que acaba complicando os atendimentos realmente necessários. (O autor, Áureo Antonio Érnica, é médico)