Bairros

‘Vizinho’ sobrevive à modernidade

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 3 min

Não importa se em casa térrea, em condomínio ou em prédio. Quem mora na cidade - e até em muitas áreas rurais - tem vizinho. Com hábitos diferentes, o segredo é um respeitar o outro para viver em harmonia. Melhor ainda se da relação de vizinhança surgir amizade, que pode permanecer mesmo com mudança de endereço de quem vive “muro a muro” ou “porta a porta”.

É o que aconteceu com Helena Jorge Qualheiro Oliveira, a dona Helena, que mudou-se do antigo endereço, uma casa na rua Benjamin Constant, mas não esqueceu os vizinhos. Por sorte, sua nova casa, na verdade apartamento, fica no mesmo bairro, o Higienópolis. E assim, além de manter a amizade e o contato com os velhos vizinhos, fez novos.

E hoje, Dia do Vizinho, ela comemora a data reunindo no salão de festas do prédio em que mora, o edifício Caparaó, antigos e novos vizinhos. “A nossa expectativa é reunir de 30 a 40 pessoas para uma confraternização às 16h, um chá da tarde”, conta Fátima Albina Qualheiro Oliveira Silva, a Bina, filha de dona Helena.

O costume de comemorar o Dia do Vizinho, data criada pela poetisa Cora Coralina, que muito prezava a amizade entre as pessoas que moram próximas umas das outras, vem de anos. “Acho que minha mãe faz esta confraternização já há uns oito anos. Antes era na casa da rua Benjamin Constant. Mas ela mudou-se, há cerca de dois anos, e agora é no prédio”, relata.

Graças à valorização da relação de vizinhança, dona Helena é uma pessoa de muitos amigos. E o mesmo já pode dizer Bina. “Muito melhor que aquela coisa de só “bom dia” e “boa tarde” é ser amigo da vizinha, poder contar com ela e vice versa”, explica. “É contagiante. A gente vai fazendo mais amizades. Uma leva à outra”, completa.

Assim como dona Helena, mesmo não fazendo uma festa específica, tem muita gente que não saberia viver se não fossem seus vizinhos. Bauru é uma cidade que cultiva a relação de vizinhança. Por influência de Cora Coralina, por muitos anos sua nora, Nize Garcia Bretas, que morava em Bauru, também fez comemoração semelhante.

Nize, casada com o filho de Cora, Cantídio Bretas Filho, era entusiasta pelo Dia do Vizinho e organização de Festas do Vizinho no Jardim Higienópolis. Após a morte do esposo, Nize mudou-se para o município catarinense de Balneário Camboriú, onde faleceu no ano passado. Mas a tradição de comemorar a data é mantida na cidade.

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Cora Coralina

A poetisa Cora Coralina é a criadora do Dia do Vizinho na cidade de Goiás (GO). Os vizinhos dela faziam questão de comemorar o aniversário de Cora. A escritora teria pedido aos amigos da vizinhança que, ao invés da festa de aniversário, fosse festejado o Dia do Vizinho.

Assim teria começado a tradição que existe há mais de 30 anos. A autora morreu em Goiás em 1985, aos 96 anos de idade. Ela começou a escrever aos 14 anos e teve dezenas de livros publicados. Entre suas obras se destacam “Estórias da Casa Velha da Ponte”, “Meu Livro de Cordel” e o livro infantil “Meninos Verdes”.

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