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Pensar o impensável

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Nova York - Paris perdeu há muito para Nova York a hegemonia de cidade mais visitada do mundo pelos turistas. Milhares de pessoas por minuto transitam pelo Times Square neste final de férias de verão. Parecem manadas cruzando o Seringuetti. Os novaiorquinos agradecem os bilhões de dólares gastos em consumo de todo o tipo. As lojas famosas estão cheias e o vendedor de hot-dog ri à bandeira despregada. Tudo é bem-vindo em tempo de crise. Criatividade nunca faltou para o marketing norte-americano. O prefeito Bloomberg transformou Times Square num calçadão. Pintou o asfalto de azul, desviou o trânsito de veículos e colocou mesas e cadeiras na rua para quem quiser sentar e comer o seu lanche (é proibido consumir bebidas alcoólicas nas ruas). Inventaram um tipo de riquixá movido a pedal, para transportar os turistas pelos teatros da Broadway. Há dois anos faz sucesso a escadaria de acrílico na extremidade norte da praça. Os turistas sentam-se nos degraus para descansar. Lá de cima da arquibancada tiram fotos dos luminosos carregados de cores, com visão privilegiada do lugar mais badalado do mundo. Uma das lojas resolveu colocar rostos e grupos de pessoas no seu outdoor gigantesco. Captados por câmeras especiais, os passantes têm suas imagens projetadas no espaço publicitário mais caro do mundo. Todos têm direito a alguns segundos de fama.

São idéias que custam barato e fazem sucesso entre as pessoas, mesmo as mais exigentes. Os norte-americanos chamam isto de “think tank”, ou seja, “a arte de pensar o impensável” mediante um armazenamento constante de sugestões. O “think tank” é uma verdadeira instituição norte-americana. Em bom português é o reservatório de idéias. Qualquer cidadão tem o direito de dar o seu palpite, mesmo que seja “infeliz”. As idéias ficam armazenadas. São estudadas quanto a viabilidade e oportunidade. Um dia elas podem se tornar realidade. Nasceu no início do século 20, e seu nome provém das salas de estado-maior nas frentes militares onde se reunia a elite da tropa para discutir estratégias a fim de vencer batalhas. Nos Estados Unidos todos os prefeitos e governadores dão enorme importância política e se deixam influenciar por essa caixa de sugestões alimentadas pelos governados. Existem organizações independentes, não partidárias, sem fins lucrativos que produzem conhecimento, dedicam-se a resolver problemas, desenvolver projetos de curto, médio e longo prazo nas áreas de políticas públicas, de tecnologia e de serviços sociais, com o objetivo influenciar decisões em favor da qualidade de vida da comunidade.

Um bom exemplo do TT, como é chamado, surgiu na ajuda de modernizar a máquina pública. Nas pequenas e grandes cidades todos aqueles que entendem de administração e aplicações de novas tecnologias somam esforços para estudar a agilização das emperradas engrenagens governamentais. Nos últimos vinte anos, a atenção tem se voltado para desenvolver novas abordagens para a saúde, políticas fiscais, educação, bem-estar social, serviço público, financiamento de campanhas eleitorais, e o novo ambiente de segurança internacional. O fim da guerra fria e a integração global modificaram as condições de liderança e governança. Nada contra ninguém, mas a favor de todos. Os políticos inteligentes abeberam-se no poço de idéias da sua comunidade porque sabem que lá está a fonte de uma boa administração, capaz de agradar a maioria. Muitas cabeças pensam melhor que uma, diziam os antigos. Hoje há perto de 3.500 instituições no mundo, sendo 1.500 só nos Estados. No Brasil, existem tipos parecidos os TT's, mas ligadas a partidos políticos, como o Instituto Teotônio Vilella (PSDB) e Fundação Perseu Abramo (PT).

É importante notar que os TT's discutem seus temas com visão transdisciplinar, uma vez que de seus staffs participam membros das mais variadas formações acadêmicas e posições ideológicas. Discute-se em Nova York situações novas, como o direito constitucional dos muçulmanos construirem uma mesquita próxima do ponto zero, local assim denominado porque ali estavam as Torres Gêmeas destruídas no atentado de 11 de setembro. Há questões mas prosaicas como a da infestação de percevejos que já provocou o fechamento de um teatro no Broadway e também perturba clientes de hotéis cinco estrelas que pagam 600 dólares de diárias.

A competição das idéias é fundamental para uma sociedade livre - pregam os norte-americanos. O Brasil e as cidades também precisam de uma competição de idéias. Os partidos políticos estão centrados, comprometidos mais com votos do que com programas. Imobilizados pela corrupção e pelos interesses individuais de seus membros , não mais geram as idéias necessárias para mover o país.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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