A globalização está impregnada de heterogeneidades conceituais. Para os países ricos e suas fortes corporações, ela é entendida como uma condição sine qua non para a continuidade dos negócios. Para os países pobres, muitas vezes ela representa mais perdas do que ganhos. Freqüentemente os detritos - ecológicos, sociais, econômicos - são o que sobram a eles. Os efeitos nocivos nas estruturas sociais, econômicas, políticas e culturais operam de acordo com a realidade de cada pais. Sejam nas denominadas nações emergentes ou em desenvolvimento, os impactos são específicos a cada realidade.
Independente da direção que esse vocábulo tome, a globalização estimula um turbilhão de efeitos e se avoluma com o desenvolvimento da microeletrônica e da conseqüente transformação em todos os setores da sociedade.
Mas por que caracterizamos a tecnologia como um impacto? A resposta está na velocidade proporcionada pela microeletrônica. Sem a tecnologia, a globalização não teria a mesma face. No contexto atual, as empresas são valoradas em relação à capacidade de adaptação, ao grau de automação e informatização, à velocidade no atendimento ao cliente e na redução dos processos de fabricação. Tudo é redefinido com apenas um upgrade num equipamento de fábrica, num computador ou num software. Também são somados os discursos que apregoam que os funcionários devem ser mais ágeis, absorverem as mudanças, serem flexíveis e estarem prontos para abrirem mão do passado, mesmo o mais recente, e assim evitarem as brechas tecnológicas e, conseqüentemente, os intervalos cognitivos.
A concepção de brecha tecnológica diferencia-se da definição de brecha digital que, segundo a Cepal - Comisión Económica para América Latina - é a distância que separa os que possuem e os que não possuem acesso às novas tecnologias da informação e da comunicação. A brecha tecnológica, aqui concebida, é mais ampla e está relacionada às limitações de inserção no mundo do trabalho para os que não possuem capacidades para utilizarem equipamentos baseados em tecnologias de ponta, bem como por não possuírem as competências que circundam os novos equipamentos fabris.
Veja-se o caso das máquinas antigas que são substituídas por tecnologias recentes, há uma reconfiguração organizacional e, ao mesmo tempo, são exigidas novas habilidades e competências. Essas habilidades e competências estão associadas às capacidades cognitivas: aprender, assimilar, operar ou integrar uma função a essa tecnologia. Após a aquisição de novos equipamentos, todo o entorno é redesenhado, visto que uma substituição tecnológica pode significar a modificação de técnicas de trabalho, gestão de pessoas e de processos.
Dessa maneira, tudo o que está distante cognitivamente, pode representar uma ameaça. Ensinar cálculos complexos para indivíduos que sequer possuem uma base conceitual pode ser caracterizado como um entrave. Nesse caso, o problema não está na exigência em realizar cálculos, mas na distância cognitiva que impossibilitada o indivíduo de operar um novo equipamento.
Como se deslocar da estagnação para um ambiente de alta tecnologia? Esse é o desafio de muitas empresas latino-americanas. A brecha tecnológica não é uma condição determinista, mas um efeito das limitações evolutivas – impostas ou não – por uma empresa ou pelas estratégias educacionais de país.
Finalmente, o Estado tem um papel fundamental em relação ao investimento em educação, pois ele pode permitir o desenvolvimento das capacidades cognitivas de seus cidadãos através do investimento – em grande escala - de centros de aprendizagem tecnológica em todos os níveis educacionais. Teríamos assim, cidadãos previamente capacitados diante das substituições tecnológicas que se acentuarão nos próximos anos.
O autor, Renato Dias Baptista, é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP - e especialista em gestão pública - Unesp, docente da Universidade Estadual de Londrina - UEL - e da Universidade Paulista - Unip - e-mail: rdbapt@gmail.com