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Adiada lei para unificar vestibulares

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 6 min

A hipotética unificação dos vestibulares das três principais universidades do Estado de São Paulo - Unesp, USP e Unicamp - em projeto de lei na Assembleia Legislativa (Alesp) levará ao menos um semestre para voltar a ser discutida.

De autoria do deputado estadual Edson Giriboni (PV), o texto propõe a junção dos três exames. A principal justificativa do projeto é a inclusão de estudantes sem condições financeiras para se inscreverem em mais de uma prova distinta.

Mesmo aprovada pela Comissão de Finanças e Orçamento da Alesp, em abril, o projeto foi retirado da pauta logo em seguida, em caráter temporário, garante o autor da proposta.

Segundo ele, o pedido de adiamento é um pedido do Conselho dos Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp). A alegação dos acadêmicos é de que a proposta requer tempo maior de discussão antes de ser encaminhada novamente para votação em plenário. “Eles nos enviaram documento solicitando uma pré-análise do projeto”, detalha Giriboni.

Ele reconhece a complexidade da iniciativa, já que uma possível unificação das provas incorreria em enorme adaptação de conteúdo e logística.

Um dos entraves seria a quem atribuir a realização dos exames. Atualmente, as três principais universidades do Estado atribuem a realização do vestibular para fundações. Vunesp, Fuvest e Comvest aplicam as provas, respectivamente, para Unesp, USP e Unicamp.

“É um assunto delicado e envolve milhares de estudantes. Jamais forçaríamos a barra e acatamos a solicitação das instituições em aguardar por seis meses”, diz o deputado. “Isso tudo também envolve adaptação pedagógica”, acrescenta.

Reprova

A cautela sobre a proposta de unificação, defende Renato Pedrosa, coordenador da Comissão de Vestibulares da Unicamp (Comvest), é justificada pelo DNA que cada instituição impõe em seu respectivo processo de seleção.

Mais que os conteúdos, as universidades colocam no vestibular perfis diferenciados de avaliação, sendo difícil uma unificação que assegure a manutenção da identidade de cada universidade dentro do processo.

Mesmo após as ponderações dos acadêmicos, acrescenta Pedrosa, a iniciativa ainda não estaria livre da reprova, em último caso, após alegada inconstitucionalidade da matéria. “A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) garante autonomia das universidades”, argumenta.

Demanda

O aspecto financeiro, principal argumento da proposta legislativa, também é questionado pelos representantes das instituições acadêmicas, que apontam para os programas que isentam alunos com carência comprovada de recolherem as taxas de inscrição.

Se, por um lado, o autor do projeto afirma que estudantes de baixa renda não têm condições de se inscreverem em mais de uma prova, por outro, as universidades apontam queda constante na procura por programas de isenção.

Na Fuvest, por exemplo, são oferecidas 65 mil isenções anuais para candidatos oriundos de escolas públicas.

O benefício, concedido a alunos com renda familiar mensal de até R$ 498,00, entretanto, foi solicitado por 21.880 vestibulandos, cerca de 4 mil a menos do que o ano retrasado.

Para o coordenador dos vestibulares na Unicamp, isso se justifica pelas adesões ao ProUni (Programa Universidade para Todos), que concede bolsas integrais ou parciais em universidades privadas para vestibulandos que, entre outros requisitos, tenham renda familiar de até três salários mínimos. “A expansão das Fatecs também contribuiu”, atribui Pedrosa.

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Alunos

Alguns estudantes, às portas de encararem pela primeira vez o desafio de entrar na faculdade, encaram com certa surpresa e diversidade de opiniões a ideia de prestar uma única prova em vista a três instituições diferentes.

Entre os questionamentos está a própria identidade institucional das universidades, que diferem no perfil inclusive de quem as procura, atenta a vestibulanda Júlia Yuri Landin, atualmente no terceiro ano do Ensino Médio. “Seria melhor para alguns alunos, mas desestruturaria a identidade construída por cada universidade”, opina.

Já o colega Renan Arsoffi Scarpelli discorda. “Não deveriam juntar tudo. Cada faculdade tem seu jeito de avaliar. Se você quer entrar numa faculdade se prepara focado nela. Se unir a prova vai ficar confuso”, acredita.

Por outro lado, a estudante Ana Carolina Trindade, que se prepara para as provas de Relações Públicas, na Unesp, e Nutrição, na USP, acredita que a unificação seria benéfica para os vestibulandos. “Seria mais fácil para estudar, ainda mais num momento de tão nervosismo”, considera.

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Preparadores também divergem

Se entre os estudantes as opiniões sobre o projeto que visa unificar as provas dos vestibulares das três principais universidades estaduais em apenas um exame são controversas, o quadro não é diferente entre os professores que preparam os jovens para o desafio de entrar na universidade pública.

“É uma decisão difícil, mas sou a favor, desde que beneficie a unificação dos conteúdos de forma nacional e que a seleção, desta forma, gere melhor qualidade de ensino”, defende o professor Naul Antônio D.Filho, do colégio Preve/Objetivo, em Bauru.

Apesar da LDB ser tida como um entrave ao projeto por alguns acadêmicos, a lei, na opinião do professor, inspiraria uma prova única, já que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), gerado por exigência da carta, teve a credibilidade abalada pelos recentes problemas, entre eles vazamento de dados.

“Vejo (a prova única) com bons olhos, desde que seja envolvidos parâmetros comuns. Seria útil e positivo e facilitaria a vida de alunos, professores e pais”, defende.

Já o diretor pedagógico do COC em Bauru, João Alfredo Carrara, é contrário e embasa a posição também na LDB. “Acredito muito na lei, fruto de estudos sérios. Penso que a gente tem que passar por uma grande reforma educacional, para que (o ensino superior) absorva bons alunos e escola para todos, escola pública de qualidade”, argumenta.

Independentemente à aprovação ou não da proposta, o diretor lamenta a falta de continuidade de políticas voltadas para a educação. “Não há continuidade, o ciclo é interrompido a cada novo governo. Acredito que isso (projeto de unificação) ainda vá render muito. Mas, particularmente, sou contra”, reitera.

Por outro lado, pondera, um processo unificado seria bem vindo desde que respeitadas as particularidades de cada universidade. “Parece contraditório, mas não”, diz. “Pena que o Enem ficou um pouco desacreditado, mas é uma proposta interessante”, relaciona. “É um exame que privilegia diferentes competências propostas. São cinco domínios de áreas diferentes, ao contrário de uma prova teste só”, diferencia.

Problema

Para o professor de Química Antônio de Andrade, além de todas as questões institucionais, uma mudança nos vestibulares das três mais importantes universidades do Estado também influenciaria, de início, no desempenho dos candidatos.

“Toda mudança, por melhor que sejam as intenções, mexem imediatamente no psíquico dos alunos”, aponta. “Vemos alunos que são direcionados para os vestibulares de forma específica, focados”, reforça. “Unificar as provas é complicado. Cada instituição tem seu perfil”, completa.

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