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Projeto desperta interesse da Prefeitura

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 5 min

A fabricação de forro com utilização de sacos de cimento vazios idealizada pelos formandos no curso técnico em construção civil–edificações do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) de Bauru, apesar de ainda incipiente, já desperta o interesse da prefeitura.

O projeto, selecionado entre os melhores do Estado no programa “Inova Senai”, além de atrair os holofotes junto a construtores e estudantes da área em São Paulo, durante exposição com as invenções de destaque em todo o Estado, também chama a atenção do titular da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), Valcirlei Gonçalves da Silva, que manifesta o desejo de conhecer melhor a iniciativa.

“Seria interessante que os alunos e o próprio Senai exponham a ideia para nós e para os empresários”, incentiva o secretário.

Potencialmente, observa Valcirlei, o reaproveitamento dos sacos de cimento vazios para a fabricação de forros para a construção civil seria uma boa forma de agregar valor às embalagens. O processo, supõe o titular da pasta, seria perfeitamente casado às atividades da Cooperativa dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis (Cootramat).

Atualmente, os catadores filiados à entidade, salienta, comercializam esse tipo de rejeito junto a outros itens reaproveitáveis. Contudo, as embalagens descartadas na construção civil ainda ficam em segundo plano entre os coletores, pouco atraídos pela baixa margem de lucro proporcionada exclusivamente pela comercialização dos sacos de cimento vazios.

Mesmo subsidiada pela prefeitura, a coleta do material, por parte dos cooperados, somente ganharia fôlego a partir do surgimento de uma alternativa além da reciclagem, que, no caso das embalagens descartadas pela construção civil, têm alto custo devido à complexidade do processo.

O reaproveitamento, para o mesmo fim, desse tipo de invólucro de papel é caro, detalha o diretor do Departamento de Ações e Recursos Ambientais da Semma, Sidnei Rodrigues. “É praticamente inviável”, define.

Encarecido pela dificuldade em se separar vestígios de cimento do papelão, o processo tem valor desproporcional ao que é pago aos catadores. “O valor pago, por quilo, está em torno de R$ 0,05”, estima.

Além do incentivo aos catadores de materiais recicláveis, um projeto aos moldes do que é proposto pelos formandos do Senai, acrescenta Valcirlei, também impulsionaria não apenas empresas a destinar melhor os resíduos da construção civil, mas também à parte da população, que dispensa os rejeitos de forma irregular, principalmente em terrenos baldios.

“A partir do momento em que tecnologias novas, mais baratas e utilizadas com maior rapidez aparecem, é melhorada também a própria conscientização entre quem dispensa esse tipo de material”, avalia o secretário.

Acúmulo

Com valor agregado após consolidada a geração de um subproduto, o material teria demanda suficiente para gerar saliente impacto social entre catadores.

Mensalmente, revelam os idealizadores do projeto, após pesquisa junto a uma grande empresa do segmento, em apenas um mês, cerca de 100 mil embalagens de papel são dispensadas por obras na cidade e na região. “Apenas um prédio com aproximadamente oito andares em construção gera em torno de 600 sacos por quinzena”, detalha Cosme Cipriano, um dos autores do projeto.

Mas se, por um lado, o descarte em larga escala das embalagens significa potencial demanda de matéria-prima para a fabricação do novo produto, o despejo dos sacos de papel continua a ser feito, principalmente em terrenos que acumulam entulho clandestinamente, resultando em poluição.

No total, os rejeitos originados pela construção civil, de acordo com dados da Prefeitura de Bauru, resultam, por dia, em até 850 toneladas de entulho. Apenas 10% desse montante, revelam os membros da Semma, vai para depósitos clandestinos.

Contudo, quando o cálculo envolve toneladas, o montante chega a assustadores 85 mil quilos de entulhos despejados diariamente em diversas áreas da cidade. “É bastante volume e é por dia”, reforça Sidnei Rodrigues. “Só ontem (quarta-feira), um caminhão da prefeitura fez oito viagens, apenas recolhendo deposição clandestina”, revela.

Processo simples

Para fazer a placa de forro, após a coleta, os sacos de cimento são picotados, a princípio, em uma máquina trituradora improvisada pelos alunos do Senai de Bauru – anteriormente servia para moagem do plástico de garrafas pet.

Em seguida, as pequenas tiras são acomodadas em um recipiente onde são encharcadas com água. Após passar por centrifugação, o composto é acondicionado em formas retangulares, para moldagem de placas com espessura variante entre 10 e 13 centímetros.

Após a secagem, é hora do acabamento. Dependendo da finalidade, isto é feito com tinta ou massa corrida. “É muito simples o processo, igual àquelas brincadeiras de crianças com moldes em papel molhado (papier maché)”, compara o aluno Cosme Cipriano, que assina o projeto junto com os colegas Eliane Regina Ariosi Campos, Michel Lucas Medeiros e Gildo Bomfim da Silva, do curso técnico em construção civil da escola do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

A ideia é que alguma indústria de grande porte no setor da construção civil encampe a ideia. “Em escala industrial, a fabricação do forro será muito rápida e econômica. Muitas empresas têm encargos ambientais e somente essa iniciativa cobriria muitos deles”, acredita Luiz Antônio Branco, professor do curso.

Usina de reciclagem

Desde o ano o ano passado, a Prefeitura de Bauru idealiza a instalação de usina para reciclagem de entulho de construção na cidade. Contudo, afirma Valcirlei Gonçalves da Silva, titular da Semma, para que a ideia saia do papel, são necessários recursos que o município, alega, ainda não dispõe. “Infelizmente não temos a verba necessária”, lamenta. “Mas continuamos com os estudos”, pondera.

Segundo ele, resta também a definição de uma área para implementação da usina. Esse estudo, detalha, é conduzido junto à Secretaria Municipal do Desenvolvimento Econômico. A partir do estabelecimento de um local, acentua o secretário, será possível definir o montante a ser investido no dispositivo, com orçamento estimado entre R$ 500 mil e R$ 1,5 milhão.

Senai pede registro da patente do forro

Apesar da execução simples , como classifica o próprio co-autor do projeto, Cosme Cipriano, a iniciativa do forro ecológico com sacos de cimento é inovadora.

Por isso, alunos e equipe do Senai, antes mesmo da exposição no “Inova Senai” em São Paulo, já requisitaram a patente do forro, que, além de sustentável e econômico, incentivam os idealizadores, também larga na frente de outros produtos feitos de matéria-prima não renovável, como PVC (à base de petróleo) ou de extração mineral, como a lã de rocha.

“Um dia ficamos sem material. Aí atravessamos a rua e encontramos 200 sacos vazios”, compara Cosme, enfatizando que 90% da água utilizada na fabricação é reaproveitadas para confecção de novas peças.

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