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História regional tem ‘inconvenientes’

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

A verdade, apesar de indispensável, nem sempre é algo agradável de se ouvir. Comum desde a antiguidade, a fabricação de feitos heróicos é importante para a constituição da própria identidade de um determinado local ou povo.

Mesmo com escassa ou simplesmente inexistente documentação, a região de Bauru não está livre de histórias “indigestas” às páginas de livros ou simplesmente folclores que, mesmo sem veracidade comprovada, permanecem debaixo do tapete.

Foi assim com o massacre de índios que viviam por estas bandas na transição do século 18 para o 19. Segundo historiadores locais, apesar das mortes serem atribuídas a colonizadores, alguns detalhes passam ignorados.

“No início do povoamento da região haviam caçadores de índios, pagos pelos responsáveis pela construção da ferrovia”, observa a historiadora Sônia Mozer. A estrada de ferro em questão, detalha a estudiosa, é a aclamada Noroeste do Brasil (NOB), tida como a mola propulsora do desenvolvimento de Bauru.

Entretanto, o homem branco não era o único vilão da história. Muitos índios – a predominância na região era da etnia caingangue – também teriam dado cabo da vida de seus iguais, lembra a historiadora Márcia Navas Sobreira, por encomenda.

“Eram bugreiros, comandados pelos civilizados. Conheciam os locais onde os outros índios ficavam”, detalha ao atribuir também mortes provocadas por rivalidades entre tribos. “Ao invés de se unirem contra um inimigo comum, continuavam os conflitos internos. Aí houve a vantagem do homem civilizado”, acentua.

Márcia informa também que os massacres, muitas vezes, não se concretizavam na base da bala, mas com atitudes, no mínimo, maquiavélicas. “Haviam outras artimanhas, como alimentação contaminada e oferecida aos índios, que também vestiam roupas infectadas por doenças. Eram outras formas de extermínio”, relata a estudiosa.

Fuso-horário

No final do século passado, quando assumiu a condição de sede de município, transferida de Fortaleza do Espírito Santo, a então vila de Bauru teria chegado ao status de cidade com o auxílio de uma atitude, no mínimo, “perspicaz” de alguns vereadores da época, comenta a historiadora Sônia Mozer.

Segundo ela, que deixa claro que o fato nunca foi comprovado e estaria mais para o folclore do que para algo consolidado na história do município, os edis a favor da emancipação bauruense teriam se utilizado de uma artimanha para aprovar a ideia sem contestações em plenário.

“Não sei se é folclore”, diz. “Mas teria sido usado uma espécie de truque para separar Bauru de Fortaleza do Espírito Santo. Numa sessão marcada para o meio-dia, vereadores de Bauru foram uma hora mais cedo para a Câmara de Fortaleza, todos com relógios sincronizados e adiantados em uma hora”, detalha. “Lá, havia apenas um vereador de Fortaleza, fazendo com que fossem a minoria”, acrescenta.

Assim, conta a historiadora, a sessão que teria dado a Bauru o título de município supostamente teria ocorrido uma hora antes do horário previsto. “Eles conseguiram a mudança de sede e rapidamente fizeram a mudança em carros de boi. Depois, foi acionada a família Mesquita (fundadora do jornal ‘O Estado de S. Paulo’), muito influente, em busca de apoio para a mudança”, complementa.

A ocupação das terras no Oeste Paulista também não é de deixar um rastro de orgulho, afirmam historiadores. “Na verdade, a lei não chegava aqui antes dos posseiros, colonizadores. A lei chegava depois das pessoas. Quem chegava aqui primeiro eram as armas”, completa Sônia. “Foi o pior tipo de grilagem. Ou alguém veio aqui e comprou terra dos índios?”, indaga.

Entre bandidos e mocinhos, atestam estudiosos e escritores, salvam-se ilesas, apenas, as interpretações, cada uma com sua verdade.

Ação e reação

A obra “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, de Leandro Narloch, recebe elogios da crítica e de especialistas na matéria. “Ele (autor) pega a história como leitura. O livro é saboroso e tem duas vantagens: é bem escrito e levanta novas interpretações”, valoriza a historiadora bauruense Sônia Mozer.

Contudo, justamente por colocar em cheque algumas unanimidades nacionais, também recebeu julgamentos contrários e até exaltados. “A crítica toda só olha para um lado. Deixo claro na introdução do livro. Tudo aquilo que a gente aprendeu, a nova historiografia confirma, ou melhor, não nega”, comenta. “Ninguém discute a humilhação sofrida por negros e índios. Mas é preciso enxergar outros casos, esse outro lado”, acrescenta Narloch.

No livro, o jornalista aponta que muitos dos índios mortos, principalmente nos períodos de colonização, teriam sido massacrados por seus iguais, de tribos adversas. Ele vai além e crava: “Zumbi dos Palmares tinha escravos”.

O questionamento de unanimidades sobre mitos continua, antecipa o autor, que prepara para lançar no ano que vem um guia semelhante sobre a América Latina, onde outros mitos serão observados com um olhar crítico. Entre eles o atual “símbolo pop” de camisetas adolescentes e ex-guerrilheiro Ernesto Che Guevara, que também terá a exposição dos pés-de-barro camuflados pelo coturno da farda que o consagrou.

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