Deverão ir a Júri Popular os policiais militares acusados de envolvimento na morte de presos. Quando trabalhei na Polícia de São Paulo, estava de plantão na Central de Polícia no Pátio do Colégio. A autoridade de plantão atendia toda a cidade, inclusive o ABC.
O telefone tocou, era um soldado do presídio da Alegria.
- Está havendo uma rebelião!
E não falou mais nada, porque levou uma paulada na cabeça com um pé de mesa.
Liguei imediatamente para a Polícia Militar e falei com o tenente Sidney Palácio Gimenez, um excelente policial, valente, corajoso e altamente capacitado.
- Blasco ,espera na porta do plantão que eu já vou pegar você e estou levando um caminhão com 30 soldados.
Entrei no carro do tenente e mandei meu carro com um escrivão e 3 investigadores. O tenente falou.
- Blasco, você já participou de rebelião em presídio?
- Não, nunca.
- Se cuida, senão você fica lá dentro.
Eu tive que autorizar a invasão. Foi a pior coisa que participei na minha vida.
Desligaram a luz, um barulho infernal dos presos batendo nas grades, fogo em colchões, muita fumaça, os presos urinam no corredor para os soldados escorregarem, gritos, tiros, bombas, presos no telhado, 4 funcionários como reféns.
Era um inferno perfeito.
Foram 10 horas terríveis, para prender todos, libertar os reféns, o soldado que telefonou para o plantão teve o crânio fraturado.
Aquilo ficou na minha cabeça muito tempo. Só quem participou de uma rebelião sabe o que é, o que significa. Não desejo a ninguém.
Esses soldados cumpriram seu dever, jamais deveriam ser acusados de crimes, estavam trabalhando em uma missão difícil, a pior de todas. É lamentável que presos morreram, mas não existe outra solução, a violência impera, presos perigosíssimos que não têm nada a perder.
A culpa de todos os mortos, dos prejuízos materiais, também é dos presos, eles são os verdadeiros culpados de tudo.
A polícia estava trabalhando, cumprindo seu dever e colocando em risco suas vidas. Esse processo deve ser arquivado e esquecido. Só não morri no Presídio da Alegria graças à proteção do tenente Sidney Palácio Gimenez.
Blasco Peres Rego