E disse o homem: eis a vida!
O mundo ficou agitado quando o cientista Craig Venter anunciou que havia criado a vida em laboratório. Utilizando-se de uma bactéria como modelo, sua equipe montou um DNA semelhante com partes sintetizadas artificialmente. O DNA representa o cérebro e contêm todas as informações necessárias para uma célula funcionar normalmente. O DNA fica no núcleo, a parte mais protegida da célula.
A partir deste feito, ele removeu o DNA de uma célula, como se retirasse o cérebro de um corpo humano, e colocou no lugar o DNA sintético como um cérebro artificial. E a célula que recebeu o DNA artificial funcionou normalmente e reproduziu-se, mostrando que a vida foi estabelecida a partir de produtos químicos feitos no laboratório.
A bactéria utilizada para receber o DNA artificial foi a Mycoplasma capricolum. O genoma sintético copiado foi da bactéria Mycoplasma mycoides JCVI-syn1.0, uma sigla de J. Craig Venter Institute As bactérias que receberam o DNA sintético passaram a se comportar e produzir proteínas como as bactérias cujo DNA foi copiado no laboratório e posteriormente implantado.
Por extensão, imagine agora o corpo humano do qual removeu-se o cérebro e no lugar colocou-se um cérebro novo feito artificialmente no laboratório. Esta “pessoa” ou corpo que recebeu o cérebro artificial restabeleceu a sua vida normal, inclusive gerando muitos filhos, mais de 1 bilhão. Parece simplista, mas foi isto que aconteceu com as bactérias. A colônia reproduzida encontra-se atualmente congelada.
Em outras palavras, podemos criar modelos de bactérias, de fungos, de parasitas e outros seres vivos para atender necessidades ecológicas, técnicas, econômicas e até esportivas da humanidade. No lugar de montarmos robôs com metais e plásticos na linha de montagem mecânica os galpões e fábricas, podemos a partir de agora idealizar isto no laboratório com produtos mais naturais representados por células, tecidos, órgãos e por que não outros seres vivos.
Quando anunciou sua nova conquista Craig Venter afirmou que a idéia é desenvolver microrganismos programados para funções específicas tais como absorver dióxido de carbono, despoluir a água, produzir bicombustíveis e acelerar a produção de vacinas. Em vez de fabricar aparelhos, máquinas e robôs para isto, fica mais barato e rápido criarmos seres vivos com esta competência específica. Este híbrido de grande cientista e empresário já tem mais de 300 patentes registradas a partir de suas pesquisas genéticas. Em função desta descoberta haverá a produção de novos remédios e formas de tratamento ou inclusive novas doenças. Afinal, foram 15 anos de testes e de R$ 73,4 milhões investidos, especialmente pela Synthetic Genomics Inc. Os trabalhos foram realizados por 24 pesquisadores, incluindo Hamilton Smith, conhecido como o gênio da biologia molecular e prêmio Nobel de Medicina em 1978. O trabalho foi publicado na versão eletrônica da prestigiosa revista Science como “Creation of a bacterial cell controlled by a chemically synthesized genome”.
O pioneiro Venter foi criticado por brincar de ‘Deus’ e os debates bioéticos afloraram, envolvendo desde Obama até o Vaticano. Poderia o homem ser capaz de criar a vida assim como fez Deus? Se a resposta for sim, um pergunta será inevitavelmente elaborada: o Deus criador existe?
A vida foi criada pelo homem ou não? Primeiro devemos definir o que é vida. Se vida for considerada o fato de alguma estrutura ter metabolismo próprio, a vida foi criada por Venter. Mas se envolver sentimento, consciência e capacidade de reflexão fica mais difícil afirmar que a vida foi criada artificialmente. Muitas discussões, livros e artigos já abordaram esta pergunta sobre o que é vida, mas infelizmente não se consegue chegar em consenso universal.
Eis a frase de Craig Venter na apresentação do seu feito: “É a primeira espécie do planeta que se autorreplica e cujo pai é um computador!”
Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. Email: consolaro@uol.com.br
____________________
Observatório
Deu na Nature – Uma das mais importantes revistas científicas, a Nature, destacou que os cientistas brasileiros nunca viram tempos melhores. Ela ressalta duas razões: os investimentos feitos pelo governo federal nos últimos anos e o fato de muitos estados tentarem competir com São Paulo, que tem a mais forte tradição científica do país. Assinado pela jornalista Anna Petherick, que cobriu a 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação em Brasília, o texto salienta os benefícios alcançados pelos estados que assumem o papel de financiar uma parte considerável de sua pesquisa, independentemente de recursos vindos de Brasília. A reportagem ressalta que desde a Constituição Estadual de 1947, São Paulo tem assegurado o investimento de uma porcentagem fixa de sua receita tributária em pesquisa científica o que dá segurança e autonomia financeira à gestora destes recursos, a FAPESP.
Procura-se um novo sol. A meia-idade do sol tem levado os astrônomos a procurar estrelas substitutas para o sol, muito embora ele ainda deva durar outros 5 bilhões de anos iluminando e aquecendo a Terra e os planetas. Daqui a uns 300 milhões o Sol passará a brilhar mais intensamente, aumentando a temperatura tornando inviável a vida na Terra. Segundo os astrônomos, a humanidade terá de deixar a Terra caso queira continuar a existir. Uma nova estrela semelhante ao Sol foi apresentada pelos astrofísicos José Renan de Medeiros e José Dias do Nascimento Júnior, ambos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), na reunião anual da Sociedade Astronômica Brasileira.
Câncer, carne vermelha e infecções - O consumo elevado de carnes vermelhas, pode favorecer o desenvolvimento do câncer por mecanismos ainda pouco conhecidos. O vírus do herpes simples, do papilomavírus (HPV) também estão implicados no aparecimento do câncer. Infecções virais, bacterianas e parasitárias estão relacionados ao aparecimento de 21% dos cânceres no mundo. Essas observações foram proferidas em agosto por quem descobriu a ligação entre o HPV e câncer de colo uterino e recebeu o Prêmio Nobel de Medicina em 2008, o virologista alemão Harald zur Hausen. Sua apresentação inaugurou o funcionamento do Centro Internacional de Pesquisa e Ensino do Hospital do Câncer A. C. Camargo, em São Paulo. Para ele, 71% dos cânceres relacionados com infecções poderiam ser evitados por meio de vacinas, antibióticos ou antivermífugos. No Brasil, 26% dos casos poderiam ser evitados por meio da prevenção de infecções em estudo do Instituto Nacional do Câncer.
Se deseja comunicar-se com o colunista escreva para consolaro@uol.com.br e a resposta poderá fazer parte desta página. Se preferir, entre no jcnet.com.br/ciências e deixe sua opinião e ou sugestões.