A mentalidade progressista está enraizada no modo de pensar dos brasileiros. Prevalece entre nós a ideia de que o progresso econômico é a única solução para as nossas mazelas e de que suas implicações socioambientais são um preço simbólico a ser pago pelo nosso crescimento.
No entanto, muito além de defender esse tipo de desenvolvimento com argumentos, tal mentalidade, não raro, faz os fins progressistas justificarem meios indefensavelmente sujos, inclusive o descumprimento descarado da Constituição quando ela se põe como obstáculo ao dito progresso. De tão consolidada, essa forma de pensar encontra pouca resistência em nosso meio, e aqueles que questionam o desenvolvimento a qualquer custo são logo tachados de militantes contrários ao progresso e até antinacionalistas.
Se o bom senso está do lado do progresso, o que explica o profundo atraso social de uma das dez maiores economias do mundo? Estariam os brasileiros trabalhando pouco, ou o discurso progressista omite que esse desenvolvimento sem critérios serve a uma minoria?
O esplêndido crescimento econômico do Brasil ao longo do século 20 - entre os maiores do mundo - não se transformou em segurança alimentar aos milhões de nós que ainda passam fome, em saneamento básico aos milhões que não contam com água tratada ou sistema de esgoto, em saúde e educação de qualidade aos milhões que dependem de serviços públicos, em trabalho decente aos milhões que atuam na informalidade ou estão desempregados (sem contar os milhares em regime similar ao da escravidão). Mesmo o governo Lula, responsável por grande mudança nos números sociais brasileiros, é escravo do pensamento progressista.
O PAC, por exemplo, é a consolidação de um modelo de desenvolvimento que privilegia as exportações de produtos primários, encabeçado pelo agronegócio - a vanguarda do progresso em nosso país. Como não houve mudanças estruturais (a começar pela reforma agrária), a redução da miséria e o aumento do poder de compra dos brasileiros tendem a ser transformações limitadas, sem a auto-suficiência que diminuiria a dependência em relação aos programas sociais. Ironicamente, o discurso progressista, não satisfeito com os resultados da economia, não poupa críticas ao tamanho do estado e ao assistencialismo, além de chamar de vagabundos e incompetentes os excluídos do desenvolvimento, principalmente os beneficiários do famigerado “bolsa-família”.
Mas não há maior excluído nesse processo do que a natureza. E fazer valer as leis ambientais (que, por sinal, andam bastante ameaçadas no Congresso) significa encarecer a produção, comprometer a criação de empregos, empurrar riquezas para outras áreas - tudo, menos salvaguardar as condições mínimas para que a vida, em suas diversas formas, possa se reproduzir e seguir evoluindo.
Ninguém sabe que nosso progresso depende diretamente da preservação da vida; ninguém quer saber. O cinismo é maior quando se aumenta a amplitude da observação: o discurso progressista se cala diante dos dois terços da humanidade abaixo da linha da pobreza que não desfrutam das maravilhas do progresso e que gritam de dor de modo uníssono com a vida em escala planetária.
A mentalidade progressista está enraizada em solo brasileiro. Mas basta um olhar mais amplo sobre o Brasil - e a Terra - para perceber que essa forma de pensar é como praga na mata nativa: deixada livremente, age contra o nosso meio, ameaçando espécies e as infinitas formas de interligação entre elas. Num contexto em que o Planeta pede socorro, é preciso cortar o mal pela raiz, ao se promover uma mentalidade mais abrangente e aprofundada, que nos torna mais sensíveis para reagir quando o progresso se põe como obstáculo ao desenvolvimento da vida.
Mateus do Amaral