As 50 crianças que foram encaminhadas ao Pronto-Atendimento Infantil (PAI) no início da noite de anteontem apresentando sintomas de intoxicação alimentar já receberam alta e retornaram para suas casas, ontem. Com idades entre 2 e 6 anos, elas começaram a passar mal depois de comer um bolo que foi doado a uma escola municipal e a uma creche conveniada com a prefeitura, no Núcleo Fortunato Rocha Lima, onde estudam. Além delas, cinco funcionários adultos também foram socorridos, mas ainda não há comprovação de que o alimento tenha sido a causa do problema.
Na creche São José, 95 crianças foram servidas com o bolo por volta das 15h30 de anteontem. Duas horas e meia depois, 34 delas começaram a sentir dores abdominais e sofrer com episódios de vômitos e diarreia. Elas foram encaminhadas ao PAI e, já na tarde de ontem, quase todas haviam retomado as atividades na creche.
Na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Geraldo Arone, sete alunos tiveram os mesmos sintomas, mas apenas dois foram atendidos na unidade de saúde. A assessoria de imprensa da prefeitura não informou de onde eram as outras seis crianças que também precisaram de cuidados médicos.
Os primeiros estudantes começaram a receber alta por volta das 3h da madrugada de ontem. Eles lotaram os corredores do PAI, que contava com uma equipe de quatro médicos pediatras naquele turno. De acordo com informações do médico Luiz Antônio Sabbag, diretor do Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de Saúde, muitos chegaram a apresentar um quadro inicial de desidratação.
“As crianças têm menos quantidade de líquido no organismo e, num quadro de diarreia, são muito mais suscetíveis à desidratação. Mas elas foram medicadas com soro e antiemético (para aliviar o enjoo). Como o Pronto-Atendimento conta só com 10 ou 12 leitos, tivemos que fazer algumas adaptações e alguns pacientes receberam soro no colo da mãe. Mas todos estão bem”, detalha.
Segundo Oswaldo Speri, presidente da creche, cerca de 50 quilos de bolo foram doados por uma mulher que não era conhecida da instituição. Ela mesma teria preparado o doce para uma festa em comemoração ao Dia de Cosme e Damião, celebrado no último dia 27, que nada tinha a ver com a creche. Mas, por causa da chuva, o evento não teria contado com a participação de um grande número de pessoas e as sobras do doce foram distribuídas para as duas unidades de ensino.
Ainda de acordo com Speri, a mulher teria citado o nome de, pelo menos, mais duas entidades e uma escola estadual da cidade para onde o bolo também teria sido destinado. O JC entrou em contato com todas elas e as instituições negaram a informação.
Conservação
Mesmo com o risco de saúde que as crianças correram, Speri afirmou que continuará recebendo doações para a creche. “Não há como prever a má intenção que há no ser humano. É claro que é preciso ver de onde as coisas vêm para não ter problemas, mas vou continuar aceitando o que nos trouxerem aqui. Não acho que essa mulher tenha agido de má-fé”, frisa ele.
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Doadora
Procurada pela reportagem, a mulher - uma aposentada que mora no Parque Santa Edwirges e que teria mais de 20 anos de atuação beneficente na cidade - confirmou que havia realizado doações para outra creche, mas não quis revelar o nome do local. Também disse que o doce não havia sido mal conservado entre segunda-feira e anteontem. Indagada sobre as informações prestadas ao presidente da Creche São José, ela desligou o telefone e não atendeu mais as ligações.
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Escola suspende doações
A diretoria da Emef Geraldo Arone também desconhecia a procedência do bolo, segundo confirmou Elisabete Pereira, diretora do departamento de unidades escolares da Secretaria Municipal de Educação. De acordo com ela, a escola já havia sido orientada a não aceitar doações de alimentos, mas a recomendação foi reforçada na manhã de ontem, depois do episódio envolvendo os alunos.
“Nenhuma unidade está autorizada a receber alimentos e os diretores sabiam disso, mas receberam a doação pensando nas crianças, porque o bairro é muito carente. Houve uma boa intenção tanto da escola quanto da mulher que doou, mas ninguém pensou nas consequências. É algo que não pode mais acontecer”, frisa.
O bolo oferecido às crianças era recheado com doce de leite e chocolate e coberto com glacê. Por se tratar de produto altamente perecível, Elisabete avalia que as crianças poderiam ter corrido um risco maior. “Na verdade, o que aconteceu serviu de alerta, mas poderia ter sido um caso mais complicado, se estivesse fazendo mais calor por esses dias. Ainda bem que nenhuma criança teve uma intoxicação grave”, analisa.
A ocorrência foi registrada pela Polícia Civil como crime contra a saúde pública. A aposentada, que teria feito o bolo com ajuda de outras oito pessoas, prestou depoimento e foi liberada.
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Vigilância Sanitária investiga origem do problema de saúde
A Vigilância Sanitária Municipal já enviou ao Instituto Adolfo Lutz amostras do bolo doado à creche São José e à Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Geraldo Arone para tentar descobrir se o doce continha alguma bactéria que possa ter causado a intoxicação alimentar coletiva que atingiu 50 crianças das duas unidades de ensino, anteontem. Mas, de acordo com a diretora do Departamento de Saúde Coletiva de Bauru, Heloísa Lombardi, ainda é prematuro afirmar que ele tenha sido a causa do problema.
Por esse motivo, ontem, as equipes da Vigilância Sanitária retornaram às instituições para coletar amostras de outros tipos de alimentos que os alunos também ingeriram no mesmo dia, que também serão encaminhadas para exame laboratorial. Paralelamente, a Vigilância Epidemiológica está visitando as casas das crianças para levantar outros dados, como os horários e o tipo de comida ingerida fora das unidades. “Vamos tentar também coletar fezes destas crianças para fazer a comparação com as bactérias reveladas no exame dos alimentos. A intenção é fazer o cruzamento da maior quantidade de dados possível”, frisa Heloísa.
Segundo ela, não há previsão para a conclusão do processo de análise dos materiais coletados. Assim que o resultado ficar pronto, a Vigilância deverá apurar os fatos e identificar os responsáveis, os quais serão submetidos a processo administrativo, ficando sujeitos às penalidades previstas, como multas.