Principal causa de óbitos no País, as doenças cardiovasculares mataram duas pessoas por dia no primeiro semestre deste ano, em Bauru. Ao todo, foram 516 vítimas, 25% delas por infarto e 9% por acidente vascular cerebral (AVC), também conhecido como derrrame. Os demais 66% das mortes tiveram como causa uma das 57 doenças vasculares que integram a Classificação Internacional de Doenças (CID-10). O número se mantém estável em relação ao mesmo período do ano passado, quando morreram 500 pessoas.
Na avaliação do cardiologista Rubens Cury, o índice de mortes é consideravelmente alto mas, ao mesmo tempo, esperado, já que as moléstias que afetam o coração e o sistema sanguíneo são as grandes responsáveis por falecimentos, à frente dos cânceres e das mortes violentas (acidentes e homicídios). E, como a população vêm se tornando cada vez mais obesa por conta da industrialização e dos maus hábitos da vida pós-moderna, a tendência é que os números se elevem ainda mais nos próximos anos.
“Vivemos uma epidemia de obesidade, uma doença que acarreta uma série de outros problemas de saúde. Seguramente, as mortes por problemas cardiovasculares está aumentando e ainda vai aumentar mais”, aponta ele, lembrando que cerca de 70% da população brasileira é considerada sedentária por não praticar, com constância, nenhum exercício físico equivalente a 30 minutos de caminhada, três vezes por semana.
Além do peso excessivo e da falta de atividades físicas, são considerados fatores de risco para as doenças cardiovasculares a hipertensão arterial, o colesterol alto, o diabetes, o tabagismo e o estresse permanente. O problema também aparece com maior frequência em homens e pessoas com mais de 50 anos.
Para as mulheres, outro fator agravante é a chegada da menopausa, momento em que elas passam a ter as mesmas chances de sofrer com doenças cardiovasculares do que os homens, o que comprova o efeito protetor exercido pelo estrógeno, hormônio feminino que reduz progressivamente a partir dos 45 anos.
A autônoma Romilda Ubeda Cavicioni, 55 anos, possui pelo menos quatro desses fatores de risco. Mulher de 1,50 metro de altura, ela pesa 66 quilos e é hipertensa. Por sofrer de asma e precisar fazer tratamento com cortisona, diz ter dificuldade para perder peso.
Diante de uma saúde frágil, aos 46 anos sofreu um infarto e, como consequência, ‘ganhou’ uma disritmia na válvula mitral (que fica no coração), o que lhe provoca sensações constantes de falta de ar ao menor esforço físico. “Não consigo nem carregar peso, fazer exercício é mais difícil ainda. Mas tomo todos os meus remédios, meço a pressão mensalmente e vou ao médico para fazer exames a cada seis meses”, detalha ela, que possui histórico da doença na família.
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AHB assume prejuízo
de R$ 3 mil por cirurgia
Por conta da defasagem na tabela do Sistema Único de Saúde (SUS), a Associação Hospitalar de Bauru (AHB) sofre prejuízo com as cirurgias cardiovasculares realizadas pelo Hospital de Base. No caso de uma cirurgia de revascularização (ponte de safena) - a mais realizada entre todas - a instituição recebe de R$ 6 mil a R$ 9 mil para prestar o serviço, incluindo materiais, medicamentos, internação e honorários. Mas os custos são de R$ 8,5 mil a R$ 12 mil.
“Por conta dessa baixa remuneração, em alguns Estados os médicos estão deixando de fazer cirurgias cardíacas pelo SUS. Mas, aqui em Bauru, os especialistas ainda não aventaram essa possibilidade”, comenta o diretor técnico da Associação Hospitalar de Bauru (AHB), Aparecido Donizeti Agostinho. Em Bauru, a equipe necessária para uma cirurgia de revascularização - de quatro cirurgiões e outros dois profissionais - recebe cerca de R$ 1,2 mil pelo procedimento.
A Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular já divulgou que irá lançar uma campanha nacional para que os seus 1,2 mil associados deixem de operar pelo SUS, como forma de retaliação contra os preços pagos aos profissionais. A crise já atinge alguns Estados, como Goiás (onde os cirurgiões já pararam de realizar cirurgias cardíacas eletivas), Bahia (onde o Ministério Público ainda tenta evitar que o serviço seja paralisado) e Rio de Janeiro (que deve interromper as cirurgias neste mês). Em São Paulo, os médicos ainda se organizam para criar uma cooperativa.
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Hereditariedade pode ser determinante
O componente hereditário, segundo o cardiologista Rubens Cury, também pode ser definitivo para a doença. Para se ter uma ideia, pessoas que possuem pais que apresentaram problemas cardiovasculares antes dos 60 anos precisam iniciar acompanhamento preventivo aos 20 anos. Já as que não se enquadram nesse grupo, podem começar a se preocupar só a partir dos 40 anos.
“Procedimentos como dosagem de colesterol e aferição de pressão arterial são importantes. De qualquer maneira, quem quer envelhecer bem precisa adotar, desde cedo, uma alimentação saudável, com pouco sal, controlar o peso e realizar atividades físicas”, analisa.
A prática da grande maioria das pessoas, reconhece Cury, ainda é bem diferente da recomendada pela medicina preventiva. Para superar essa cultura essencialmente curativa arraigada ao longo da história, ele acredita ser necessária a adoção de políticas públicas para educar e estimular a população a entender a saúde como um benefício de longo prazo.
“Grande parte dos pacientes que já tem diagnóstico de hipertensão não costuma realizar o controle adequado da doença. O brasileiro ainda só procura o médico quando tem dor. E esse descuido se acentua ainda mais nas camadas menos escolarizadas”, frisa.
Contrariando o senso comum, o médico explica que as pacientes jovens que sofrem infarto não correm mais risco de morrer do que pessoas com mais de 50 anos. Segundo ele, tratam-se apenas de casos mais incomuns, mas não raros entre os fumantes. “A mortalidade é maior nas pessoas mais velhas porque elas apresentam mais comorbidades, como o diabetes, que diminuem a imunidade. O jovem não morre com maior facilidade diante de um infarto, essa é uma crença popular”, analisa.