Quando você abriu os olhos pela primeira vez, um clarão de luz invadiu sua pequena vida e só depois de um bom tempo é que você realmente conseguiu enxergar alguma coisa. Primeiro borrões, sombras, luzes. Depois, as imagens começaram a ficar mais nítidas e aos poucos você foi aprendendo a ver. Sem mesmo poder enxergar ou compreender o seu estranho mundo e sem saber o que estava fazendo exatamente aqui nessa existência, você já trazia dentro de si uma poderosa semente.
Para Deus que plantou esse grãozinho em sua alma, tudo fazia sentido e quando você nasceu o mundo estava particularmente necessitado dessa capacidade que vinha guardada em sua vida. Com pesos e medidas exatas, o Mestre de tudo e do absoluto sabia o quanto você ia fazer sucesso e ser feliz, simplesmente oferecendo aos seus semelhantes aquilo que já era seu em abundância. À medida em que você foi se tornando gente, dando seus primeiros passos, ampliando suas experiências, conhecendo pessoas, fatos e circunstâncias, muitas pistas começaram a se manifestar aqui e acolá para que você fosse conseguindo desvendar aos poucos o misterioso conteúdo daquela sementinha embrulhada em seu interior.
De repente, você se viu abraçado com os animais. Agradando os bichinhos na rua, você começou a se sentir responsável pela felicidade deles. Ainda pequeno, os seus desenhos encantavam tanta gente que você começou a se orgulhar de rabiscar com lápis colorido as folhas do seu caderno. Já na escola, a professora ficou impressionada com a sua facilidade para matemática e você começou até a ensinar os seus coleguinhas. Na adolescência, a música entrou na sua vida de forma inesperada e quando se deu conta, você estava tirando o maior som naquele velho piano da sua mãe. Em outra época, você se descobriu encantado com a arte da fotografia e gostou muito do prazer que esse hobby lhe trazia.
Frases como essas resumem muito bem os sopros misteriosos que recebemos da vida quanto à missão que trouxemos para cumprir nesse enigmático mundo de diversidades. São pistas claras que nos batem à porta, mas que nem sempre estamos suficientemente despertos para ouvir e atender ao chamado. Os sábios gregos inventaram o termo “aretê” para conceituar essa virtude natural, individual e intransferível, esse propósito de excelência a que nossa existência se destina e que já trazemos em nossa essência. Segundo eles, seria a realização dessa destinação o segredo da felicidade, guardado a sete chaves.
Aos poucos, cada um de nós vai recebendo pecinhas desse grande quebra-cabeças. Cabe-nos ir guardando e tentando encaixar as peças para montar o quadro dessa verdadeira mensagem enigmática. Reconhecendo a figura que está sendo montada, vamos descobrindo o nosso verdadeiro talento: a chave que temos e as portas que com ela conseguimos abrir. Seguindo essa receita, cada macaco estaria desfrutando de seu respectivo galho, as moedas da parábola de Cristo teriam sido bem investidas, não haveria frustrações tardias, dificuldades de encaixe profissional, más escolhas educacionais. O relógio da existência funcionaria sem um segundo de atraso e cada qual estaria trilhando o seu próprio e iluminado caminho. Nem a inveja existiria, pensando bem.
Mas há tarefas na mistura desses ingredientes e no preparo dessa receita chamada felicidade. E cada ser humano tem sua parcela na mexida da colher. Penso que as escolas são as grandes cozinhas onde se azeitam os talentos. Os professores são os mestres-cucas a observarem os ingredientes e as peculiaridades de seus alunos, diferenciando-os pelas tendências e habilidades naturais. Falta apenas que as escolas assumam e cumpram o seu fundamental papel nessa história de desmistificar para as crianças as pistas mágicas que recebem da vida. Falta as instituições de ensino tomarem a iniciativa que já deveriam ter tomado há muito tempo de realizar testes vocacionais anuais. A cada série, desde o beabá, o aluno faria um teste junto com as provinhas de final de ano. Os testes poderiam ser adaptados a todas as idades, sendo também fruto de muita curtição e autoconhecimento até para os bebês.
Ao final de cada ciclo, o aluno já teria evidências concretas dos seus talentos naturais. Ano após ano, essas tendências se confirmariam ou se enriqueceriam ao sabor da pesquisa, cada vez mais significativa para a criança que começa a compreender o valor de ser especial. Regidas por esse verdadeiro estímulo rumo ao autoconhecimento, viriam depois as escolhas, as especialidades, os aperfeiçoamentos. Se as escolas acordarem para o seu potencial humanista e cumprirem seu aretê, a esfinge da realidade será decifrada por tanta gente que, pobrezinha, não devorará mais ninguém e morrerá de fome.
A autora, Luciana Gonçalves, é articulista de Opinião