Pelo menos com esta eleição o Brasil resolve o seu problema com a educação, melhora o atendimento à saúde e moderniza a infraestrutura precária que tanto prejudica a nossa competitividade no mercado global; vamos nos sentir mais seguros para sair às ruas e desligar as cercas elétricas. Foi o que os candidatos nos prometeram. Temos razões para otimismo. O presidente Lula acertou em dar continuidade à política econômica. Foi bem sucedido ao vitaminar as políticas sociais iniciadas timidamente por FHC. Em seu governo, camadas inteiras da sociedade brasileira, antes excluídas do mercado consumidor passaram a ter acessos a bens de consumo e engenhocas eletrônicas. Qualquer do povo pode comprar um televisor de tela larga para pagar em prestações a perder de vista. Isto tudo, mesmo que ao feliz comprador falte rede de esgoto na rua esburacada da sua casa e a escola do seu filho seja uma droga. Sofremos a ilusão coletiva da falsa prosperidade. Nunca os empresários ganharam tanto dinheiro, segundo o próprio presidente. Os banqueiros sorriem. Mas Lula se diz vítima do preconceito das elites e do excesso de liberdade da imprensa que deveria se limitar a informar. Dilma Rousseff, apontada como provável sucessora de Lula, desde o início da campanha foi apresentada como a garantia de que o país vai continuar próspero.
De verdade, o Brasil tem muito chão pela frente para deixar de ser “emergente” e aparecer de uma vez à tona das nações desenvolvidas. Toda a espuma corre o risco de se desvanecer se os governantes não tiverem peito para promover as necessárias reformas tributária, previdenciária, administrativa, econômica (juros altos), na educação, no judiciário e na infraestrutura, pelo menos. Gastamos mal. O Brasil deve R$ 1 trilhão e 600 bilhões e os superávits primários são artificiais. Os observadores internacionais apontam a precária educação elementar como o nosso ponto mais fraco porque inviabiliza o futuro do país. Quase 40 milhões de brasileiros são considerados analfabetos funcionais. A partir desta constatação podemos entender como se formam médicos que não leem; advogados que não sabem redigir um só parágrafo coerente; engenheiros incapazes de dominar a lógica. Explica-se como pode ser eleito com 1milhão de votos “Tiririca, o filho do Braziu”.
Lula tem méritos evidentes. É uma espécie de Midas da política, cujo toque pode transmudar anônimos políticos em ilustres estadistas. As eleições de hoje serão marcadas pelo metalúrgico-fenômeno. Até a oposição tentou se vincular a Lula com a esperança de aproveitar do seu prestígio e reverter essa aproximação em voto. Ao entrar na disputa com o discurso do “continuar o que está bom”, do “pode mais”, José Serra subverteu a lógica eleitoral e assumiu o risco de sofrer uma derrota já no primeiro turno. Há quem tema que essa possível debacle eleitoral possa abalar a própria estrutura do partido. Ou Aécio Neves assume o comando do tucanato ou muda de partido. Os que permanecerem vão ter que juntar os cacos.
O recente escândalo de corrupção na Casa Civil, com o envolvimento da própria ministra da pasta, Erenice Guerra, parecia ser o que faltava para o PSDB virar o jogo eleitoral. O escândalo respingou na imagem de Dilma, mas pouco abalou o presidente Lula. Diante deste Ferrabraz-político as promessas de salário mínimo maior, 13º para o bolsa família e os 10% de aumento para os aposentados soaram ridículas. Lula afastou-se quando viu a candidatura Vilma ganhar autonomia. Voltou à cena para defender o produto da sua criação ameaçado por conta de questões delicadas, como o aborto. Até o bispo Edir Macedo foi convocado para ajudar a apagar o foco de incêndio. Logo ele, que se declara a favor do aborto. Faz parte do circo. Hoje, mais do que nunca, que Deus nos proteja. Amém.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC