Articulistas

Amargo regresso

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Os franceses têm uma expressão popular que se encaixa perfeitamente à atual situação conturbada da campanha eleitoral. As pessoas assistem à briga “au-dessus de la mêllé”. Nós, meros expectadores inocentes, vemos do alto o jogo sujo da política, como que sentados numa arquibancada para assistir a uma partida de rúgbi, onde os contendores se engalfinham em disputa da bola. Eles nem se importam em rolar na lama. O presidente da República, em seu elevado espírito cívico, está sempre nos contemplando com profundas metáforas futebolísticas. Também posso fazer a minha humilde comparação com outro esporte. Na quinta-feira Lula chamou de “farsa” a agressão sofrida por José Serra, no Rio. Comparou o candidato tucano com o goleiro chileno Rojas que simulou ter sido alvejado por um rojão, durante partida no Maracanã. E de ter transformado uma bolinha de papel de papel em “arma maligna”. À noite, em Caxias, o que disse Dilma: “Hoje vimos uma bolinha de papel virar uma arma maligna. Usam o mesmo expediente de Rojas que se feriu com uma gilete para causar tumulto. Não faço conversa fiada com bola de borracha cheia d’água. Eu me esquivo”.

Pelo jeito, nas carreatas, Dilma em vez de olhar para o povo fica de olho nas janelas dos edifícios por onde passa. É muito esperta... Semana passada Lula disse no Rio Grande do Sul: “Quando um não quer dois não brigam”. Horas depois, em BH, Dilma repete como o boneco do ventríloquo: “Quando um não quer dois não brigam”. Esta campanha foi capaz de criar a mulher-Lula a partir da costela do presidente divinizado. O talentoso Chico Buarque de Holanda, no seu apoio explícito à Dilma, disse que “o governo Lula não fala fino com Washington nem fala grosso com Paraguai e Bolívia”. Lula também não deveria ser tão melífluo com os ditadores latinoamericanos e muito menos com o sanguinário Ahmadinejad. Millôr disse uma vez que não confiaria o seu cachorrinho para o Chico dar uma volta com o pet no quarteirão. Deixa a banda passar...

Dilma e Serra acabaram de rezar para Nossa Senhora da Aparecida e se engalfinham na mais violenta, baixa e suja campanha das que se tem notícia. Supera a de 1989, quando Collor, num segundo turno tão acirrado quanto este colocou na televisão o depoimento de uma antiga namorada de Lula. Ela afirmou que Lula teria querido forçá-la a fazer um aborto. Vinte anos depois Lula e Collor se reconciliaram, para espanto da filha Lurian, objeto daquela disputa abjeta.

A Mitra Diocesana de Guarulhos imprimiu milhares de panfletos contra Dilma acusando-a de ser “a favor da descriminalização do aborto” e, por isso, não merecedora dos votos dos católicos. A mesma gráfica, de uma família ligada ao PSDB também imprimiu revistas com reportagens favoráveis à Dilma, patrocinadas por empresas públicas como a Petrobras e a Eletrobras. Militantes petistas tentaram invadir a gráfica para impedir a distribuição dos panfletos da Igreja. A quebra do sigilo fiscal dos parentes de Serra foi paga pelo jornalista Amaury Ribeiro Jr., contratado por um núcleo de investigações do PT para produzir dossiês contra os adversários políticos. Virou “encomenda” do ex-governador Aécio Neves para se proteger de José Serra nas disputas internas do PSDB, destinadas à escolha do candidato do partido à Presidência.

Estamos diante de um realismo fantástico. Dossiê virou “banco de dados”; acha-cadores foram chamados de “aloprados” e agora de “neoaloprados”; caixa dois é “recurso não contabilizado”. O jornal “Estadão”, ainda no primeiro turno publicou um editorial para dizer que apóia Serra. Melhor deixar o apoio claro do que nas entrelinhas. Mas apoiar é uma coisa, passar esse apoio para o noticiário é outra. O jornal deixou claro que se tratava de liberdade de expressão garantida pela Constituição. Três semanas depois não respeitou esse mesmo direito e demitiu uma articulista que emitiu expressão divergente daquela defendida pelo jornal. O jornalismo, ensinam os mestres e recomenda o mercado, não deve estar a serviço de interesses momentâneos, políticos, comerciais ou ideológicos. Também não é o que o Lula defende, que a mídia deve se ater ao factual, emasculado de opinião.

Falta apenas um cadáver nesta campanha. Os fascistas italianos, em vez de bolinha de papel usavam o “magnelli” (porrete) e óleo de rícino enfiado goela abaixo dos adversários de Mussolini, o que era uma prova folclórica de fidelidade fanática a um regime político. Ainda bem que aprendemos com Dilma a fazer o Sinal da Cruz. Vamos precisar nos benzer. A democracia brasileira caminha para um triste episódio de vacuidade política, de regressão ideológica e de primitivismo civilizatório. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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